quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Nada se cria

A frase "nada se cria, tudo se copia" parece ser cada vez mais verdadeira em tempos de internet, em que a maior possibilidade de divulgação e acesso a obras artísticas facilita muito a cópia e o plágio desses trabalhos, juntamente com o pensamento de "se está na internet, não tem dono".

Não é que cópia seja sempre algo ruim. Pelo contrário, copiar, de uma forma ou outra, é quase essencial para que se aprenda a desenhar, contanto que seja com o objetivo de treino e aprendizado. A questão é quando essas cópias deixam de ser apresentadas como estudos, com os devidos créditos da fonte, e passam a ser apresentadas como se fossem obras autorais, criações próprias, tomando para si os créditos de uma criatividade que não lhe pertence.

 "Soul of a Bird", o sketch original, e a pintura digital, de 2010.

Obra plagiada, e quando postei no meu facebook, mesmo tendo ocultado o nome dos dois autores, um deles apareceu e ainda por cima insultou minha obra por tabela...
Mais duas, apaguei as assinaturas. Um deles, quando comentei sugerindo que se creditasse a artista original, respondeu rispidamente que não foi nada copiado pois "todo mundo desenha mulher pássaro" ou qualquer coisa assim.


E quando acontece com a gente... bom, é natural que isso nos aborreça. Há quem venha dizer que deveríamos ficar felizes por alguém gostar tanto do que fazemos que queira fazer igual, ou que estamos "inspirando" outras pessoas, ou nos console com o fato de que o/a copiador/a "nunca será tão bom". Mas a questão é que não se trata só disso. Fazer arte não é algo trivial, não é só "fazer algo bonito" com alguma técnica. Artistas costumam ter toda uma trajetória no desenvolvimento de sua arte e colocar muito de sua alma no que faz. Às vezes uma obra em particular tem motivações emocionais, pessoais, até mesmo espirituais. Coloca-se na arte suas próprias percepções sobre o mundo, passando tudo por um "filtro" de visão pessoal. E quando alguém se apropria daquela criação, que foi parida com carinho e esforço, é um tremendo desrespeito além de uma atitude que demonstra pobreza criativa.

Todo artista provavelmente tem suas fontes de inspiração, em outros artistas ou em elementos do mundo. No entanto, o trabalho é o de juntar todos aqueles ingredientes recolhidos pelo mundo, ou de outras obras, e cozinhar na própria panela, filtrar com seu filtro próprio e único, para gerar algo novo. É claro que haverá elementos em comum com outras obras; isso por si só não caracteriza uma cópia ou plágio, mas sim todo o conjunto da obra, o simbolismo pessoal, o traço, o mundo que está sendo expressado ali.

Cada pessoa tem seu filtro através do qual atravessa os elementos do mundo para produzir algo único. Mas existem pessoas que vêem o produto daquele filtro de alguém, crêem "se identificar" com ele e pegam o resultado para si, já mastigado, e o reproduzem. Me parece que essa atitude envolve uma ânsia de ego, de tomar aquilo para si, como se não bastasse admirar o fato de que outra pessoa o fez, mas poder dizer que o fez também. Eu sei disso porque sinto o mesmo quando vejo muitas obras de artistas que admiro. Eu lamento não ter sido eu a ter feito aquilo, eu sinto vontade de poder fazer igual, porém desejo desenvolver e expressar algo só meu, com a minha própria substância, utilizando também toda aquela beleza admirada como combustível. É algo meio melancólico, na verdade, o fato de que não podemos ser tudo que admiramos, não podemos ser todas as pessoas que invejamos, só podemos ser nós mesmos; mas mesmo o que somos pode ser transcendido, e o interessante é que quanto mais nos auto-transcendemos, mais "nós mesmos" nos tornamos. É bem mais difícil e até doloroso trilhar o caminho não trilhado por mais ninguém além de nós, ao invés de usar uma estrada já criada por alguém, mas certamente é muito mais gratificante e real.
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