terça-feira, 23 de junho de 2015

Sobre a morte e o respeito

Crânio de guaxinim que ganhei de presente.

Algumas vezes, pessoas que gostam de colecionar restos mortais de animais são confrontadas com opiniões diversas a respeito dessa prática. Certa vez vi uma discussão em que alguém havia postado uma foto de meus colares com relicários, dentro dos quais havia asas de borboletas e outros insetos, bem como ossos e um pé de passarinho mumificado, em que algumas pessoas diziam achar um "desrespeito" que se utilizasse restos de animais para fins decorativos, que "ninguém gostaria que seus restos mortais fossem usados de enfeite pra todos verem" e coisas assim.

Bom, pra começar, não é verdade que "ninguém gostaria que seus restos mortais fossem usados", ou que preservar restos mortais de um ser vivo, mesmo um ser humano, seja universalmente visto como algo "desrespeitoso" para com os mortos. Cada cultura possui sua maneira de lidar com a morte. Enquanto uns lamentam, outros festejam. Enquanto uns enterram, outros cremam ou atiram num rio sagrado, ou ainda deixam na montanha para os elementos e os pássaros devorarem, numa prática conhecida como "sky burial", ou "enterro celeste" (praticada no Tibet e em certas províncias da China). Para uma cultura que tem o costume de conservar os restos mortais de seus antepassados, parecerá desrespeito uma cultura que enterre seus mortos e deixe a terra devorá-los. Cada cultura tem seus motivos e significados para suas práticas, portanto não há uma maneira universal de se lidar com a morte. Pessoalmente, considero desrespeitoso utilizar os restos mortais de alguém de forma que a pessoa não teria consentido, que desrespeitasse sua cultura ou sua família.

Ossos humanos são conservados por ordens religiosas ou famílias como relíquias, para veneração ou memória, pois em muitas culturas acredita-se que os restos conservam a essência física e espiritual do falecido. Acredita-se que os ossos possam trazer boa sorte, afastar maus espíritos, ou trazer proteção, na forma de amuletos ou talismãs. Com frequência, desde a antiguidade, ossos humanos também foram e são usados para fazer jóias, utensílios, instrumentos musicais e armas.

Outra prática comum ao longo da história, especialmente na época vitoriana, é a conservação de cabelo humano em forma de jóias, chamadas de "jóias de afeto" ou "jóias de luto". Os cabelos trançados, colocados dentro de relicários, muitas vezes decorados com ouro e cravejados de pedras preciosas, geralmente pertenciam a algum ente querido, falecido ou não,  mas também eram feitos de forma comercial apenas pela sua beleza.


Toda essa variedade cultural e de visão a respeito da morte também varia em relação a restos animais; uns podem ver desrespeito em se reaproveitar os restos mortais de animais, outros verão mais desrespeito em descartá-los. Portanto, é muito complicado estabelecer um julgamento sobre o que é mais "ético" ou "respeitoso". Tudo depende da percepção e da intenção da pessoa que os está manuseando ou utilizando.

É claro que essa "relatividade" não se aplica, na minha opinião, para a caça esportiva, ou a morte propositalmente provocada para se adquirir partes de animais para fins de decoração, troféus, ou qualquer tipo de triunfo e satisfação egóica. No entanto, vejo o reaproveitamento de partes de animais e insetos em obras de arte ou ornamentos como uma maneira de prestar-lhes reverência e admirar-lhes a beleza. A maior parte dos colecionadores de ossos ou restos de animais são, frequentemente, defensores de direitos animais e profundos amantes da natureza. Pode-se amar os animais admirando-os vivos em seu habitat, mas também pode-se amá-los conservando e estudando seus restos mortais.

Assim como os restos humanos, também creio que os restos mortais de animais conservam de alguma forma seu espírito e essência, e portanto, qualquer parte animal que eu venha a conservar, ou criar artes ou adornos, simbolizam muito mais do que um simples objeto ou enfeite: são uma fonte de inspiração e contemplação, eles carregam beleza e magia selvagens, o mistério da vida e da morte.

Relicário com pé de passarinho e musgo, feito por mim.

Todas as coisas possuem um espírito: não só animais, mas plantas e ervas, depois de mortas, são usadas para curar, para perfumar, para alimentar. Até mesmo o que parece sem vida, como pedras, minerais, objetos, utensílios, tudo está embebido de espírito, que jaz naquilo que o objeto é, e seu papel no mundo. Não há nada verdadeiramente "morto" no universo, pois o que chamamos de morte é apenas o processo de renovação e transformação da vida.


Deixo aqui um link para o belo trabalho de Maria Ionova-Gribina, em que ela fotografa animais que ela encontra mortos na estrada, dignificando suas mortes ao mesmo tempo que os transforma em lindos e sensíveis trabalhos de arte: http://medium.com/vantage/a-childhood-ritual-transforms-roadkill-into-art-ccaa6f67299c


8 comentários:

  1. Eu sou inimigo da epistemologia científica mas acreditar que existem espíritos é um forte delírio metafísico. Melhor afirmar o mundo radicalmente como ele é sem buscar objetivos na ciência, religiões ou numa crença metafísica. Não entendo essa paranóia do medo das pessoas da finitude (morte). É preferível viver num mundo sem sentido, a acreditar num sentido falso que tenta com todas as forças humanizar a existência. Por mais que a "realidade"seja incapturavel, não acho que um certo "sentido oculto da realidade" seja um critério justo de análise.

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  2. Eu já discordo desse discurso um tanto pessimista sobre a realidade da psique, acho que a metafísica como a ciência do não-palpável é até mais real do que a matéria. E quanto à matéria nós sabemos o fim, mas a vida de todo o mundo inteligível é um grande mistério. Tem muito mais pra saber sobre a vida e a morte do que essa conscienciazinha pequena do ateísmo. :p

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    1. A epistemologia científica não destrói a realidade mas é um reator que destrói as ilusões. A minha visão é um exercício de imparcialidade que filtra ficções que nunca existiram de fato. Num mundo onde tudo é físico, como a metafísica pode ter valor?

      Na verdade, aquilo que se preocupa em buscar o que está “além” da realidade não é a epistemologia científica, mas a metafísica, que significa literalmente depois da física. Mas o que está além da física? Ora, a resposta é óbvia: Nada!

      A metafísica é um tiro no escuro, algo tão inútil quanto usar a imaginação para prever o futuro.

      Mas o ser humano é arrogante que ele acha que a vida dele é especial, quando na verdade somos somente animais que vivem de maneira diferente. Inventamos coisas para fingir que a vida faz sentido (casamento, esportes, dinheiro, trabalho etc) e assim não cairmos em depressão. Pra efeito de registro, amor, casamento, filhos, carreiras acadêmicas são ilusões que serve de analgésico para existência.

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  3. Acho que o que assusta nas pessoas sobre suas obras e joias é o fato de estar abordando o tema da morte sempre, trazendo e celebrando isso, quando traz esse universo para o universo da vida. Por exemplo, uma das obras mais lindas suas, para mim, é o de uma menina com várias flores e caveiras de animais nos cabelos, um bem colorido. Pra mim, esse desenho fala sobre a morte quase como as caveiras mexicanas, de açúcar, em que quase se ri do fato de que todos vamos morrer. Pessoalmente, acho uma ótima opção, e até lá não ir se levando tão a sério. =)

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  4. Quanta arrogancia mesmo..." :p

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  5. Pois eu acho melhor acreditar em algo e se sentir especial do que adotar uma postura critica e ser "do contra" e sair jogando um monte de coisa pessimista nas pessoas so pra tentar provar pra elas "o quanto é inteligente" quando, francamente, na verdade deve estar tentando provar isso pra si mesmo por alguma frustracao. Nesse caso, faz um esforco tremendo pra se ver de forma positiva e consequentente ver o mundo tbm dessa forma, procura se sentir melhor em relacao a si mesmo mas nao consegue, entao a saida é racionalizar" tudo... certamente quem ja reprimiu a capacidade de sentir esperanca se disser que sente esperanca em relacao a si mesmo e ao mundo estara mentindo!
    Acho que tentar experimentar mais pra descobrir qual e a vocacao ou forma de expressao verdadeira é o melhor a se fazer, ainda é tempo!! rs...

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  6. Esses Relicários você botará à venda em sua loja?

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