segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Inktober 2015 - Parte IV

Pois é, não fui até o fim com o Inktober deste ano, de novo. Mas fui mais longe que ano passado. E até que tive um bom motivo: fiquei ocupada demais tatuando, e não consegui fazer os desenhos diários do Inktober por cansaço (eu podia ter feito qualquer coisinha simples, é claro, mas eu não consigo fazer coisinhas simples por exigir muito de mim mesma).

Mas aqui estão os últimos Inktobers:

16 e 17.
 Juntei esses dois porque achei que se complementavam bem juntos. Gosto muito do efeito texturizado do nanquim espalhado na água, ele faz minúsculos caminhos e ramificações no papel.




18.
Fiz esse alguns dias depois, num esforço de continuar até o fim do mês, em vão. Utilizei pela primeira vez uma tinta que havia comprado há muito tempo, um vidrinho de aquarela líquida. Gostei muito do tom ferrugem, e a tinta é bem pigmentada (a marca se não me engano é Aqualine - não estou com o vidrinho comigo para verificar). Também usei guache branco.

* * *
E como mencionei, estou tatuando, e uma das tatuagens que fiz foi um dos desenhos do Inktober, a pedido da cliente. Gostei muito de fazê-la!


Estou trabalhando num estúdio junto com mais 3 queridos amigos, no centro de Curitiba. Para quem quiser seguir nossa página do facebook, segue o link:
https://www.facebook.com/studiomorphose/
Depois falo mais sobre como está sendo o aprendizado e o trabalho com tatuagem!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Inktober 2015 - Parte III

Continuando a sequência do Inktober!

Dia 11.
Uma Sheela na gig! Sheela na gigs são figuras históricas de mulheres nuas exibindo uma vulva de tamanho exagerado. Eram esculpidas e geralmente encontradas em edificações como igrejas e castelos, sendo mais comuns na Irlanda e também na Grã-Bretanha. Acredita-se que elas afastam os espíritos do mal e oferecem proteção. Acho bastante fantástico o conceito da exibição da genitália feminina como tendo o poder de espantar espíritos malignos. Embora há quem tenha feito interpretações misóginas deste conceito, creio que se trata do reconhecimento ancestral do poder milagroso da vulva, sobre a geração da vida e consequentemente sobre a morte. Nada melhor para manter o mal afastado do que o vislumbre daquilo que é, simbolicamente, o poder criativo e devorador de todo o universo.

Foi a primeira vez que usei o nanquim com um bico de pena. Acho atraente, mas ainda não me dei muito bem com a ferramenta... talvez por não ser da melhor qualidade (tanto o bico quanto o papel que estou utilizando), talvez por falta de prática...

Dia 12.
E por falar em genitálias femininas, fui no embalo e desenhei uma Baubo dançante. Já desenhei a Baubo antes e escrevi um post sobre ela.

Dia 13.
Neste dia eu estava sem paciência pra desenhar, mas não queria deixar de fazer, então fiz um desenho baseado numa foto de uma raposinha dormindo, pra não ter que pensar muito. Estava tendo dúvidas sobre se continuaria com o Inktober... acabei continuando.

Dia 14.
Esse monstrengo foi bem divertido de fazer. Acho que desenhar monstros proporciona uma liberdade agradável ao desenhar. Também foi a primeira vez que fiz todo o desenho apenas com pincéis, sem usar canetas ou bico de pena.


Dia 15.
A imagem de um demônio ou sátiro chateado, talvez frustrado amorosamente, apenas me veio à mente. Gosto de desenhar demônios tristes, talvez gerar por eles uma empatia que não é comum se ter por esses seres.

Continuaremos nos próximos posts...

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Inktober 2015 - Parte II

Seguem mais 5 desenhos do Inktober!

Aqui comecei a alegria do marcador. Tenho um cinza da marca Tombow mas nunca tinha usado nem dado importância a ele. Achei muito gostoso de usar, pela suavidade e pelo formato de pincel, e facilita na hora de fazer umas sombras, ao invés de usar nanquim diluído. Vou ver se arranjo outros tons de cinza.


Dia 6.
Eu nunca havia desenhado uma caveira humana antes (exceto talvez em uma ou outra ocasião como um detalhe dentro de uma composição). Eu gosto de crânios de animais em geral, mas caveiras humanas me perturbam um tanto. Sempre tive um pouco de medo delas. O fato é que ao pesquisar por referências e ver fotos de crânios, comecei a ficar tão incomodada que pensei em desistir da ideia de desenhar uma caveira. Mas fui em frente, enfrentando meus medos, hehehe. E no final, acabou sendo bem divertido desenhá-la.

Enquanto desenhava, fiquei pensando muito nessa questão do por quê crânios humanos me deixam desconfortável, tentando chegar à raiz desse meu medo. Talvez pelo fato de serem ossos da mesma espécie que eu, pela natureza de um ser humano ser tão diversa da dos outros animais em alguns aspectos... Acho que é a estranheza frente à contemplação de algo que era vivo, e não é mais - algo que permanece ali, inanimado, depois que a vida vai embora. Creio que esse sentimento é a contemplação do próprio mistério da morte, e consequentemente da própria vida. Não é à toa que a caveira é o símbolo máximo da morte, e de fato era (e é) usado como objeto de meditação e memento mori em muitos contextos na história, na religiosidade, etc. É um símbolo extremamente forte e que pode significar muitas coisas - morte, perigo, sabedoria, ancestralidade, consciência da passagem do tempo, igualdade entre os seres humanos...


Dia 7.
Num tópico mais leve, nesse dia resolvi desenhar alhos e cebolas. Amo o cheiro.

Dia 8.
Neste dia tive vontade de desenhar asas.

Dia 9.
...e mais asas, de outro tipo. Não é segredo meu gosto por mariposas...
Tenho experimentado pontilhismo, e apesar de achar lindo o resultado, requer uma paciência que eu dificilmente tenho. Neste desenho foi onde mais usei, embora nem pareça tanto, mas depois disso jurei que não inventaria de fazer tanto pontilhismo em um desenho, hahaha.


Dia 10.

Me incomoda a dificuldade de digitalizar artes. O fato de meu monitor ter estragado e eu estar usando um mais simples talvez contribua para eu ficar incomodada com a forma como as cores são mostradas em minha tela. O contraste do preto diminui muito, em comparação com como é o desenho na vida real, e muitos tons mais sutis se perdem, prejudicando o aspecto geral e a fidelidade ao desenho original. Mas esse é o problema da arte digital ou digitalizada - ela é bem "subjetiva", já que cada monitor ou tela digital tem uma calibragem ou capacidades diferentes de exibição de cores, então cada pessoa vai ver seu trabalho de um jeito ligeiramente diferente. E isso me incomoda bastante! Hahaha. Além disso, a luz do scanner muitas vezes reflete onde não deveria em partes do desenho, especialmente em partes como traços de nanquim, que às vezes ficam um pouco brilhantes. Usei spray fosco sobre ele para tentar amenizar esse problema, mas mesmo assim tive que retocar digitalmente.

É isso por hora. Seguirão os posts com os desenhos do Inktober!

domingo, 11 de outubro de 2015

Inktober 2015 - Parte I

Faz um tempão que não atualizo o blog e tem tanta coisa nova pra postar que preciso escolher alguma!
Ano passado tentei fazer o Inktober, mas acabei não indo até o fim. Esse ano estou fazendo novamente e tentando me manter determinada. Ano passado eu até errei um pouco no conceito, pois o "ink" não se refere a qualquer tipo de tinta como achei que fosse (eu fiz algumas pinturas só em aquarela), então esse ano estou me concentrando em usar apenas nanquim, acompanhado às vezes de aquarela ou marcador.
Até o momento foram 10, neste post vou colocar até o 5, depois vou colocando o resto em próximas postagens.

Dia 1.

É um desafio difícil desenhar todo dia. Afinal sempre tem aqueles dias em que não estamos com a menor vontade de desenhar, ou sem inspiração, ou nada que desenhamos parece sair bom. Além disso, não consigo fazer desenhos muito simples, de forma que sempre acabo gastando um tempo fazendo detalhes que nem sempre estou com paciência de fazer - mas faço assim mesmo, pois vejo como um desafio de disciplina. Desenhar todo dia é algo que eu acredito muito que deveria fazer, algo essencial para a evolução, mas geralmente minha instabilidade *existencial* me impede disso. Por isso quero levar a sério esse desafio, hehe!

Dia 2.

Também confesso que nanquim não é meu material preferido. Gosto muito mais do grafite, se fosse um Graphitober seria bem mais fácil pra mim, hehe. Mas esse é outro aspecto do desafio. Lidar com materiais com que não temos tanta afinidade ou facilidade nos força a aprender e buscar soluções. Com tudo isso, produzo alguns desenhos que não faria normalmente.
Dia 3.

Todos os desenhos são pequenos, no máximo um tamanho A5, às vezes menores. Tento colocar no papel algumas ideias que podem me servir de inspiração para desenhos mais elaborados mais tarde, e também ir praticando o traço em geral.
Em quase todos os desenhos eu faço algo que acho que não fica muito bom e eu penso "bom, da próxima vez já sei como não fazer", ou, "agora já sei qual aspecto preciso melhorar".

Dia 4.

Em alguns dias eu realmente sofro pra conseguir desenhar. Teve dia em que eu joguei uns 2 desenhos fora antes de conseguir fazer um que me deixasse satisfeita. Dá vontade de desistir e deixar de fazer naquele dia, mas meu perfeccionismo não me deixaria interromper a linearidade do desafio e pular um dia, nem mesmo fazendo 2 no dia seguinte, hehe! Então insisto e no final até acaba saindo algo inesperado. Mas meu processo criativo é quase sempre acompanhado por muitas crises e existencialismo. Tudo que acontece enquanto eu desenho me leva a reflexões sobre a arte, a vida, a criatividade, auto conhecimento. Não consigo fazer nada de forma despreocupada, tudo é muita matéria para pensamento.
Dia 5.

Acho que o símbolo de Capricórnio resume bem a forma dificultosa e introspectiva com que eu lido com a criatividade e a criação, hehe. Porém, sempre em frente!

Continuarei postando os próximos desenhos em breve! =)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Nada se cria

A frase "nada se cria, tudo se copia" parece ser cada vez mais verdadeira em tempos de internet, em que a maior possibilidade de divulgação e acesso a obras artísticas facilita muito a cópia e o plágio desses trabalhos, juntamente com o pensamento de "se está na internet, não tem dono".

Não é que cópia seja sempre algo ruim. Pelo contrário, copiar, de uma forma ou outra, é quase essencial para que se aprenda a desenhar, contanto que seja com o objetivo de treino e aprendizado. A questão é quando essas cópias deixam de ser apresentadas como estudos, com os devidos créditos da fonte, e passam a ser apresentadas como se fossem obras autorais, criações próprias, tomando para si os créditos de uma criatividade que não lhe pertence.

 "Soul of a Bird", o sketch original, e a pintura digital, de 2010.

Obra plagiada, e quando postei no meu facebook, mesmo tendo ocultado o nome dos dois autores, um deles apareceu e ainda por cima insultou minha obra por tabela...
Mais duas, apaguei as assinaturas. Um deles, quando comentei sugerindo que se creditasse a artista original, respondeu rispidamente que não foi nada copiado pois "todo mundo desenha mulher pássaro" ou qualquer coisa assim.


E quando acontece com a gente... bom, é natural que isso nos aborreça. Há quem venha dizer que deveríamos ficar felizes por alguém gostar tanto do que fazemos que queira fazer igual, ou que estamos "inspirando" outras pessoas, ou nos console com o fato de que o/a copiador/a "nunca será tão bom". Mas a questão é que não se trata só disso. Fazer arte não é algo trivial, não é só "fazer algo bonito" com alguma técnica. Artistas costumam ter toda uma trajetória no desenvolvimento de sua arte e colocar muito de sua alma no que faz. Às vezes uma obra em particular tem motivações emocionais, pessoais, até mesmo espirituais. Coloca-se na arte suas próprias percepções sobre o mundo, passando tudo por um "filtro" de visão pessoal. E quando alguém se apropria daquela criação, que foi parida com carinho e esforço, é um tremendo desrespeito além de uma atitude que demonstra pobreza criativa.

Todo artista provavelmente tem suas fontes de inspiração, em outros artistas ou em elementos do mundo. No entanto, o trabalho é o de juntar todos aqueles ingredientes recolhidos pelo mundo, ou de outras obras, e cozinhar na própria panela, filtrar com seu filtro próprio e único, para gerar algo novo. É claro que haverá elementos em comum com outras obras; isso por si só não caracteriza uma cópia ou plágio, mas sim todo o conjunto da obra, o simbolismo pessoal, o traço, o mundo que está sendo expressado ali.

Cada pessoa tem seu filtro através do qual atravessa os elementos do mundo para produzir algo único. Mas existem pessoas que vêem o produto daquele filtro de alguém, crêem "se identificar" com ele e pegam o resultado para si, já mastigado, e o reproduzem. Me parece que essa atitude envolve uma ânsia de ego, de tomar aquilo para si, como se não bastasse admirar o fato de que outra pessoa o fez, mas poder dizer que o fez também. Eu sei disso porque sinto o mesmo quando vejo muitas obras de artistas que admiro. Eu lamento não ter sido eu a ter feito aquilo, eu sinto vontade de poder fazer igual, porém desejo desenvolver e expressar algo só meu, com a minha própria substância, utilizando também toda aquela beleza admirada como combustível. É algo meio melancólico, na verdade, o fato de que não podemos ser tudo que admiramos, não podemos ser todas as pessoas que invejamos, só podemos ser nós mesmos; mas mesmo o que somos pode ser transcendido, e o interessante é que quanto mais nos auto-transcendemos, mais "nós mesmos" nos tornamos. É bem mais difícil e até doloroso trilhar o caminho não trilhado por mais ninguém além de nós, ao invés de usar uma estrada já criada por alguém, mas certamente é muito mais gratificante e real.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Sobre a morte e o respeito

Crânio de guaxinim que ganhei de presente.

Algumas vezes, pessoas que gostam de colecionar restos mortais de animais são confrontadas com opiniões diversas a respeito dessa prática. Certa vez vi uma discussão em que alguém havia postado uma foto de meus colares com relicários, dentro dos quais havia asas de borboletas e outros insetos, bem como ossos e um pé de passarinho mumificado, em que algumas pessoas diziam achar um "desrespeito" que se utilizasse restos de animais para fins decorativos, que "ninguém gostaria que seus restos mortais fossem usados de enfeite pra todos verem" e coisas assim.

Bom, pra começar, não é verdade que "ninguém gostaria que seus restos mortais fossem usados", ou que preservar restos mortais de um ser vivo, mesmo um ser humano, seja universalmente visto como algo "desrespeitoso" para com os mortos. Cada cultura possui sua maneira de lidar com a morte. Enquanto uns lamentam, outros festejam. Enquanto uns enterram, outros cremam ou atiram num rio sagrado, ou ainda deixam na montanha para os elementos e os pássaros devorarem, numa prática conhecida como "sky burial", ou "enterro celeste" (praticada no Tibet e em certas províncias da China). Para uma cultura que tem o costume de conservar os restos mortais de seus antepassados, parecerá desrespeito uma cultura que enterre seus mortos e deixe a terra devorá-los. Cada cultura tem seus motivos e significados para suas práticas, portanto não há uma maneira universal de se lidar com a morte. Pessoalmente, considero desrespeitoso utilizar os restos mortais de alguém de forma que a pessoa não teria consentido, que desrespeitasse sua cultura ou sua família.

Ossos humanos são conservados por ordens religiosas ou famílias como relíquias, para veneração ou memória, pois em muitas culturas acredita-se que os restos conservam a essência física e espiritual do falecido. Acredita-se que os ossos possam trazer boa sorte, afastar maus espíritos, ou trazer proteção, na forma de amuletos ou talismãs. Com frequência, desde a antiguidade, ossos humanos também foram e são usados para fazer jóias, utensílios, instrumentos musicais e armas.

Outra prática comum ao longo da história, especialmente na época vitoriana, é a conservação de cabelo humano em forma de jóias, chamadas de "jóias de afeto" ou "jóias de luto". Os cabelos trançados, colocados dentro de relicários, muitas vezes decorados com ouro e cravejados de pedras preciosas, geralmente pertenciam a algum ente querido, falecido ou não,  mas também eram feitos de forma comercial apenas pela sua beleza.


Toda essa variedade cultural e de visão a respeito da morte também varia em relação a restos animais; uns podem ver desrespeito em se reaproveitar os restos mortais de animais, outros verão mais desrespeito em descartá-los. Portanto, é muito complicado estabelecer um julgamento sobre o que é mais "ético" ou "respeitoso". Tudo depende da percepção e da intenção da pessoa que os está manuseando ou utilizando.

É claro que essa "relatividade" não se aplica, na minha opinião, para a caça esportiva, ou a morte propositalmente provocada para se adquirir partes de animais para fins de decoração, troféus, ou qualquer tipo de triunfo e satisfação egóica. No entanto, vejo o reaproveitamento de partes de animais e insetos em obras de arte ou ornamentos como uma maneira de prestar-lhes reverência e admirar-lhes a beleza. A maior parte dos colecionadores de ossos ou restos de animais são, frequentemente, defensores de direitos animais e profundos amantes da natureza. Pode-se amar os animais admirando-os vivos em seu habitat, mas também pode-se amá-los conservando e estudando seus restos mortais.

Assim como os restos humanos, também creio que os restos mortais de animais conservam de alguma forma seu espírito e essência, e portanto, qualquer parte animal que eu venha a conservar, ou criar artes ou adornos, simbolizam muito mais do que um simples objeto ou enfeite: são uma fonte de inspiração e contemplação, eles carregam beleza e magia selvagens, o mistério da vida e da morte.

Relicário com pé de passarinho e musgo, feito por mim.

Todas as coisas possuem um espírito: não só animais, mas plantas e ervas, depois de mortas, são usadas para curar, para perfumar, para alimentar. Até mesmo o que parece sem vida, como pedras, minerais, objetos, utensílios, tudo está embebido de espírito, que jaz naquilo que o objeto é, e seu papel no mundo. Não há nada verdadeiramente "morto" no universo, pois o que chamamos de morte é apenas o processo de renovação e transformação da vida.


Deixo aqui um link para o belo trabalho de Maria Ionova-Gribina, em que ela fotografa animais que ela encontra mortos na estrada, dignificando suas mortes ao mesmo tempo que os transforma em lindos e sensíveis trabalhos de arte: http://medium.com/vantage/a-childhood-ritual-transforms-roadkill-into-art-ccaa6f67299c


domingo, 21 de junho de 2015

Escudo

Sempre achei curioso como em muitas culturas usa-se figuras assustadoras e demoníacas para espantar o mal. Como carrancas ou gárgulas, servindo como protetores. Acho engraçado pois imaginaria que demônios ou "coisas ruins" não teriam medo de cara feia, já que achariam ser "um deles". Realmente dá matéria para se refletir: nem tudo que é feio ou demoníaco é mau, e demônios podem temer outros demônios...

Uma noite quando estava quase-dormindo me veio a ideia para esse desenho. Uma dessas artes-encantamentos...




Estágios do desenho antes de ser finalizado:

 

 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Desenhos automáticos

A primeira vez que ouvi falar em "desenhos automáticos" foi pela obra de Austin Osman Spare, artista e ocultista inglês. De seu artigo, "Automatic Drawing", traduzo:

"Um rabisco "automático" de linhas torcidas e entrelaçadas permite que o germe de uma ideia na mente subconsciente se expresse, ou, pelo menos, sugira-se à consciência. A partir desta massa de formas procriativas, cheias de falácia, um débil embrião de ideia pode ser selecionado e treinado pelo artista para seu pleno crescimento e poder. Por esses meios, podem as profundezas mais profundas da memória ser utilizada e as fontes das instinto aproveitadas.No entanto, não pense que uma pessoa que não seja um artista possa por estes meios não se tornar um: mas os artistas que estão com dificuldades na expressão, que se sentem limitados pelas convenções rígidas do dia e desejam a liberdade, mas não a atingiram, estes podem encontrar nisto um poder e uma liberdade não detectáveis em outro lugar. Assim, escreve Leonardo da Vinci: - "Entre outras coisas, não vou hesitar em descobrir um novo método de assistir uma invenção; que, embora insignificante na aparência, pode ainda ser de serviço considerável em abrir a mente e colocá-la sobre o aroma de novas ideias, e é este: se você olhar para alguma parede velha coberta com sujeira, ou a aparência estranha de algumas pedras listradas, você pode descobrir várias coisas como paisagens, batalhas, nuvens, poses incomuns, dobras de tecido, etc. Desta massa confusa de objetos a mente será equipada com abundância de modelos e temas, perfeitamente novas."

Um desenho automático é feito de forma não-planejada, deixando que os movimentos do subconsciente sobre a mão formem imagens abstratas ou surreais sobre a superfície a estar sendo desenhada ou pintada, livres do controle racional. A técnica é muito utilizada por surrealistas e permite que se manifeste um componente de "aleatoriedade", ou a expressão de mensagens subconscientes, livres do pensamento tradicional e da mente racional e condicionada. Além disso, permite-nos nos liberar das expectativas de tornar uma obra "correta" ou "boa", e simplesmente permiti-la acontecer, entrando em maior contato com nossas emoções, intuições e a própria experiência sensorial de desenhar ou pintar.

Decidi experimentar, e produzi algumas folhas com rabiscos.

 


As da primeira foto são bem abstratas e as considerei só como aquecimento... na segunda foto, tentei deixar com que algo como figuras pudessem surgir.
Selecionei os dois últimos desenhos para continuar trabalhando neles, agora de forma mais planejada, aproveitando apenas o "germe da ideia" que surgiu na fase automática. Eles ficaram assim:



Também fiz um desenho mais figurativo e definido - não foi tanto na linha "deixar a mão fazer rabiscos sem pensar", e sim fazer formas e padrões, mas sem planejar ou raciocinar. Provavelmente polirei um pouco este desenho para disponibilizar para tatuagem mais tarde.



Foi uma experiência que achei bastante fascinante pois de fato foram imagens que eu não teria criado de forma "consciente". Frequentemente sinto que minha criatividade fica bloqueada pelos processos da mente consciente, condicionada a procurar seguir determinadas regras, leis e expectativas aprendidas. Nessas horas ou em qualquer outra, o exercício de libertar-se dessas amarras e deixar que as formas mais profundas e "não-domesticadas" do interior da mente possam emergir é uma fonte infinita de surpresas.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Baubo, a alegria que mora no ventre

Desenho de Baubo em grafite, cores e texturas digitais.
Baubo é uma deusa grega pouco conhecida e representada de forma um tanto estranha: uma figura feminina sem cabeça nem braços, com o rosto no ventre. Às vezes, os olhos ficam nos seios e a boca é a própria vulva. Ela também é representada como uma mulher expondo de forma jocosa uma vagina de tamanho exagerado entre as pernas. Ela é a deusa do ventre e do humor, especialmente do humor obsceno.

Ela desempenha um papel muito importante no mito de Deméter e Perséfone: a deusa mãe da terra, das estações e das colheitas encontrava-se inconsolável pela perda de sua filha Perséfone, raptada por Hades e levada ao submundo. Ela havia buscado por sua filha por toda a terra, sem êxito, e tamanha era sua dor e seu sofrimento que ela amaldiçoou todos os campos férteis do mundo, impedindo tudo de nascer: o trigo, as flores, os bebês. O mundo tornou-se estéril e esgotado enquanto ela chorava sua dor.

Quando ela, exausta, recostou-se na pedra de um poço, chegou por ali essa mulher engraçada. Ela veio fazendo uma dancinha com os quadris, balançando seus seios, e Deméter não pôde deixar de sorrir quando a viu. Depois, ela começou a contar à deusa algumas piadas picantes e engraçadas. Deméter começou a sorrir e aos poucos o riso se abriu em gargalhadas, e as duas juntas riram. E foi esse riso que tirou Deméter de sua depressão, dando-lhe energia para continuar a busca de sua filha, que terminou tendo sucesso, e assim as terras voltaram a vicejar.

Outra versão da história conta que depois de conversar e contar piadas a Deméter, Baubo terminou levantando sua saia e foi isso que fez Deméter gargalhar até a barriga doer. As histórias variam a respeito do que foi que Deméter viu debaixo da saia de Baubo que a fez rir tanto, mas seja o que for, foi o que a tirou da depressão.

Para além da ideia material de "concebedor de vida humana", o ventre feminino também é o centro de criatividade. Todas as coisas, como símbolos, funcionam por analogia. O ventre é um centro criativo e de vitalidade, lar da libido e do fogo que acende nosso interesse pela vida, é o caldeirão que cozinha nosso entusiasmo, que alimenta nossa alma. Ele também contém o riso visceral e selvagem que cura as tristezas, aquele riso que vem bem do fundo de nossas entranhas...

Baubo nos traz muitas lições a respeito da sacralidade e do poder do corpo feminino, especialmente de sua sexualidade. Infelizmente o significado desse "humor obsceno" de Baubo é facilmente mal interpretada nos dias de hoje, em nossa sociedade moderna patriarcal, sendo confundida com simples vulgaridade...


Soube a respeito de Baubo pela primeira vez no livro Mulheres que Correm com os Lobos, e recomendo muito sua leitura para entender mais sobre o que Baubo representa (entre muitas outras belezas)... segue um trechinho:

"O sagrado e o sensual/sexual vivem muito próximos um do outro na psique, pois eles despertam nossa atenção por meio de uma sensação de assombro, não por alguma racionalização, mas pela vivência de alguma experiência física do corpo, algo que instantaneamente ou para sempre nos muda, nos sacode, nos leva ao ápice, abranda nossas rugas,-nos dá um passo de dança, um assobio, uma verdadeira explosão de vida.

No sagrado, no obsceno, no sexual, há sempre uma risada selvagem à espera, um curto período de riso silencioso, a gargalhada de velha obscena, o chiado que é um riso, a risada que é selvagem e animalesca ou o trinado que é como uma volata. O riso é um lado oculto da sexualidade feminina: ele é físico, essencial, arrebatado, revitalizante e, portanto, excitante. É um tipo de sexualidade que não tem objetivo, como a excitação genital. É uma sexualidade da alegria, só pelo momento, um verdadeiro amor sensual que voa solto e que vive, morre e volta a viver da sua própria energia. Ele é sagrado por ser tão medicinal. É sensual por despertar o corpo e as emoções. Ele é sexual por ser excitante e gerar ondas de prazer. Ele não é unidimensional, pois o riso é algo que compartilhamos com nosso próprio self bem como com muitos outros. É a sexualidade mais selvagem da mulher."



(Clarissa Pinkola Estés)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Meu primeiro livro

Quando eu era criança eu gostava de fazer livrinhos dobrando páginas sulfite e grampeando. Eram sempre sobre os animais que eu gostava no momento: tem um sobre um jardim de beija-flores de todas as cores, outro sobre uma família de garças, outro sobre um passarinho vermelho, uns com dinossauros... mas este sobre um gatinho que queria um dono tem escrito no verso "1º livro". Não sei se é o primeiro que eu fiz mesmo, ou se só o considerei o primeiro "oficial". Ele é de 93, então eu tinha 7 anos quando fiz.

Lembro que colocaram ele em exposição num mural da minha escolinha, perto da recepção, e eu fiquei meio ofendida porque sentia que eles estavam tomando algum crédito por aquilo - "vejam como produzimos alunos capazes e criativos!" - mas o mérito era inteiramente meu, a escola não tinha nada a ver com isso. Aliás, sempre detestei escolas.

Então, vamos lá.

 

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