terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Festival Sul Americano dos Sagrados Saberes Femininos

Semana passada estive no 1º Festival Sul Americano dos Sagrados Saberes Femininos e posso dizer que foi uma experiência e tanto. Acho que eu não conseguiria dar nenhuma descrição muito objetiva do evento, porque além de já "normalmente" viver muito dentro do meu mundo particular, estou num momento muito específico em que minha consciência, observadora de mim mesma e do mundo, parece pairar suspensa no espaço... E é muito difícil descrever qualquer coisa, nesse mundo de coisas-sem-nome-nem-forma. Então enquanto estive lá eu só vivia o momento, sem buscar interpretações ou racionalizações, e só mais tarde as percepções se assentariam na minha mente.

Cerimônia maia com as abuelas da Guatemala, fotografia por Leticia Ribas.

O Festival foi um encontro com a presença de abuelas da América Latina, anciãs indígenas, líderes espirituais femininas, as chamadas mulheres-medicina, xamãs e afins, com cerimônias com plantas de poder, terapias, yoga, danças, celebrações, círculos de mulheres para troca de saberes, temazcais, tudo isso numa pousada chamada Tempero da Serra, na região de Piraquara, em Curitiba, PR.



Foi uma experiência muito diferente de tudo que já vivi pois até então eu nunca tinha tido contato com esse tipo de sabedoria dos povos da américa latina. Conheci mulheres maravilhosas, que compartilharam suas histórias de força, superação, renascimento, cura, seus saberes, seus cantos. Nenhuma força bruta se compara com essa força magnífica das mulheres, esse poder verdadeiramente mágico de transformação.

Fotografia por Leticia Ribas.

Foi também a primeira vez que tive várias experiências, como o temazcal, e certas plantas de poder - e no caso destas não posso dizer que foram boas experiências, pois elas me fizeram passar por uma maratona de muitas horas de mal estar! Mas ainda assim, experiências válidas para o auto conhecimento.

Foram oportunidades para gerar muitas reflexões: por exemplo, sobre como saber a diferença entre limites de nosso corpo e essência que devem ser respeitados, e travas e medos que devem ser superados. Concluí, por exemplo, que realmente não me harmonizo bem com o tabaco! Mas fico pensando: será que o mal estar que me causa é por eu não ter, essencialmente, uma afinidade com a erva, ou por alguma deficiência minha de elementos que ela representa e que precisam ser harmonizados?

Pessoalmente, acredito num caminho de suavidade; não creio que precisamos nos forçar a atravessar desconfortos como se tudo que nos fosse desconfortável fosse na verdade algo necessário, afinal, o desconforto e o sofrimento também são sinalizações naturais de que aquilo não está a nos fazer bem. No entanto - e voltamos à reflexão inicial - muitas vezes precisamos atravessar o desconforto para nos retirarmos de uma situação de inércia, em que nos acomodamos numa mesmice sem desafios nem crescimento. E remédios costumam ter gosto ruim... Creio que é aí que precisamos aprender a ouvir a sabedoria do coração e seguir o fluxo natural - "ser como a água", como diria Bruce Lee -, sem nos tratarmos com força violenta desnecessária, mas também não permitindo que nossa água fique parada, e sim percorra o caminho com graciosidade através dos obstáculos.

A tenda do Temazcal, fotografia por Renaclo Filho.


(Mas também fica um importante ensinamento que nos foi dito durante o calor escaldante do temazcal: a dor e o sofrimento são maravilhosos portais...)

Também me gerou reflexão a questão do Sagrado Feminino - como feminista, considero essencial a crítica dos gêneros, mas no meio espiritual/mágico isso também pode se tornar um tanto confuso. O que é o Sagrado Feminino? E qual o papel das mulheres dentro disto? Na nossa cultura, o sexo feminino é mantido em submissão através da imposição do papel social de gênero, em que tudo que é atribuído às mulheres é visto como inferior e ao mesmo tempo serve para mantê-las na situação de subserviência: enquanto os homens dominam o mundo através da força bruta e sua posição dominadora, e as características vistas como "masculinas" - força, agressividade, liderança - são tidas como "naturais" dos homens, conceitos como delicadeza, maternidade, mansidão são impostos sobre mulheres para retirar-lhes a força e a autonomia, numa atribuição também culturalmente tida como "natural" das mulheres. No entanto, todas essas coisas também são celebradas no Sagrado Feminino. E eu acredito que de fato precisam ser valorizadas e celebradas, pois falta muita delicadeza neste mundo tomado por valores patriarcais, machistas, exploratórios, brutais. No entanto, como libertar as mulheres do papel de gênero e ao mesmo tempo valorizar essas coisas tão essenciais mas que, em desequilíbrio, são utilizadas como armas contra elas? Como trabalhar esses valores sem reforçar a ideia de que "é assim que mulheres devem ser porque são mulheres"? Mas isto é assunto extenso que provavelmente deixarei para futuros posts.

* * * *
E como não poderia evitar de ser, várias vezes "escapei" do festival em si para adentrar as matas dos arredores, em busca de cogumelos e bichinhos pra fotografar:



8 comentários:

  1. <3 que lindo Carol! Quero te acompanhar no próximo.

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  2. que demais... da próxima vez que isso acontecer, também quero!

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  3. Olá Carol.
    Gosto muito de tatuagens e quero fazer uma com seu desenho d'A Passarinha. Antes, porém, preciso saber se tenho seu consentimento.
    Adoro seu trabalho.
    Um abraço!

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    1. Oi, Fê! Muito obrigada por perguntar, pode fazer sim a tattoo, e não esquece de me mandar uma foto depois! =) Beijos!

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  4. Oi, já estive em festivais parecidos, tudo o que posso falar dessas experiências é que a maioria dos que frequentam e organizam são pessoas com muito poder mistico ou o que for nas mãos mas que não sabem canalizar, tanto que dá a impressão de "outra dimensão" outro tempo quando se está lá, fora a mistura de muitas substâncias, enfim costumamos sair desnorteados e questionando muita coisa. Fico feliz de ver que você chegou a uma conclusão equilibrada e direta do seu coração. Estou contando a minha experiência, é claro.

    Eu gostaria de saber como você aprendeu a desenhar e a desenvolver depois? Não sei se tem um post no início do blog falando sobre isso. Acho você de verdade muito talentosa. Estou engatinhando ainda, e adoro realismo e grafite.

    Beijos =)

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    1. Olá! Seu comentário faz sentido, eu acho que nesses lugares realmente além de tudo tem bastante energia misturada pela quantidade de pessoas e pelo próprio tema em si e o que ele atrai. Eu fiquei um tanto desnorteada sim, mas eu geralmente não sei julgar se é uma questão pessoal minha ou se estou captando a energia do ambiente. De qualquer forma no fim tento filtrar tudo na forma de algo com que eu possa aprender e refletira respeito. Obrigada por compartilhar sua experiência! =)

      Olha, eu venho desenhando desde criança então acho que o meu caminho foi simplesmente o da prática mesmo, hehe. Não que eu pratique o suficiente, deveria treinar mais... =( Mas pra desenvolver o traço é basicamente isso: treino e prática! Desenhar bastante, procurar referências, desenvolver o senso de observação. Fazer aulas também ajuda a acelerar o processo! Beijos e bons desenhos!

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    2. rs olá de novo =)

      vc falou de aulas, então vou te explicar a minha experiência com desenho, quem sabe vc me dá uma luz se puder?

      qdo eu tinha 9 anos fiz aulas de pintura em tecido, daí com 12 anos fiz de mangá, que basicamente era copiar em uma folha quadriculada os detalhes dos personagens, aí dois anos atrás conheci o livro "Desenhando c/ Lado Direito do Cérebro", aí eu passei a "enxergar" com os olhos pra desenhar, seguido disso eu fui fazer aulas em ateliê que eram 2h, 3h desenhando com a profa. do lado, desenvolvi um pouco mas era sem uma sequência mto certa e cansativo, daí fui pra um lugar que primeiro ensinava um desenho não-realista mas focado nas proporções e estudos de Da Vinci, pra depois desenvolver livremente com uma boa base, mas aí eu ficava na batalha do cérebro matemático com o cérebro artístico, já que eu já "sabia" desenhar....

      Enfim, é que estou por conta própria hj, desenhando um pouco mais e vc falou em "referência", me sinto perdida, eu sinto que já sei, mas me falta técnica......... ai ai... é mta coisa

      Qdo vc tiver tempo e sentir uma intuição de responder, agradeceria, pq realmente seu trabalho, com os temas e o seu jeito específico de criar, acho que comunicam com o meu, embora eu seja iniciante.

      Bjs! =)

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    3. Oi! Acabei demorando pra responder então não sei se vc vai ler isso, mas: com "referência" eu quis dizer procurar fotografias ou imagens para copiar ou nas quais se basear pra desenhar. Fotos de corpos nus em várias posições com várias iluminações, por exemplo, pra desenhar olhando e assim ir aprendendo a anatomia... e sempre procurar prestar atenção nas formas, ir desenvolvendo esse "aprender a ver" que é necessário pro desenho. =) Leva tempo, mas se praticar sempre vc vai ver sua evolução. Bjos!

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