quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Vali

Aquarela, no sketchbook.
Vali Myers, a Bruxa de Positano. Nascida em 1930, em Sydney, abandonou a escola aos 14 anos para trabalhar para pagar aulas de dança. Tornou-se bailarina na Melbourne Modern Ballet Company. Depois, foi para Paris perseguir sua carreira, mas acabou assumindo um estilo de vida boêmio, se associando a diversos artistas e intelectuais locais, passando as noites em cafés desenhando e fazendo sua arte. Em 1955 mudou-se com seu então marido, para um vale italiano chamado Positano, cercados pela natureza e por diversos animais, entre eles Foxy, sua querida raposa. Mais tarde, o "Reino de Vali" foi transformado num santuário de vida selvagem.

Vali e Foxy.
Com seus cabelos vermelhos flamejantes, seus olhos marcadamente pintados de preto, suas roupas ciganas, as tatuagens em seu rosto, Vali era uma visão extravagante. Sua arte revelava seu mundo espiritual vibrante, com figuras femininas e um misticismo selvagem.

"Eu apenas desenho - desde que era uma menininha. As pessoas sempre tentam rotular isto,
mas você não pode rotular esse trabalho, é original. É como perguntar por quê você dança? Você faz isso porque você tem o espírito dentro de você... se eu não desenhasse, eu enlouqueceria. Artistas são como xamãs - eles têm essa compulsão e nada pode pará-los." (Vali Myers)


 

Vali considerava sua maquiagem sua "pintura de guerra", que ela aplicava ritualisticamente e jamais saía sem ela - exceto quando havia algum problema urgente com seus animais. Ela acreditava que os círculos negros em torno dos olhos protegiam contra o mal. Ela abominava a ideia de que maquiagem era um método para atrair homens. De acordo com Menichetti, "aplicar a maquiagem era encontrar seu verdadeiro rosto". Um de seus poemas favoritos foi-lhe entregue por um jovem durante sua estadia em Londres. Ele lhe disse, "este poema é como você":

If I make the lashes dark
And the eyes more bright
And the lips more scarlet
Or ask if all be right
From mirror after mirror,
No vanity’s displayed:
I’m looking for the face I had
Before the world was made.

— de Before the World Was Made by W.B. Yeats.

(tradução livre: "Se pinto os cílios de preto, e ilumino meus olhos, e pinto os lábios de escarlate, ou pergunto se tudo está bem de espelho a espelho, não é por vaidade: estou buscando pelo rosto que eu tinha antes do mundo ser feito.")


Ela tratava sua juba flamejante com a mesma devoção: recusava-se a usar um pente, mas uma vez por mês, dedicava-se a desembaraçá-lo, atividade à qual se dedicava sozinha e durante horas, até que seu cabelo tivesse adquirido um grande volume.

"O centro da vida é feminino - todos nós viemos de nossas mães. Eu sempre desenhei mulheres ou espíritos femininos. Sinto isso profundamente - quem se importa com um cara numa cruz? A criatividade de minha mãe foi sufocada depois que ela se casou e fez uma família, mas ela sempre me apoiou - até meu pai esperava que eu seguisse os passos dela. Eu prefiro não ter filhos, mas muitos animais." (Vali Myers)

Vali foi diagnosticada com câncer e faleceu em fevereiro de 2003, aos 72 anos. Em seu leito de morte, disse a um entrevistador:
"Eu vivi 72 anos absolutamente flamejantes. Não me incomoda nem um pouco, porque sabe, amor, quando você viveu como eu vivi, você fez tudo. Eu coloquei todo meu esforço em viver... Estou num hospital agora, e acho que vou chutar o balde aqui mesmo. Todo besouro faz isso, todo pássaro, todo mundo. Você vem ao mundo e depois você vai."

domingo, 3 de novembro de 2013

In Memoriam

Vi um cara chutando um ratinho pro meio-fio. De longe não consegui entender direito o que tava acontecendo e o que ele tava chutando, mas quando percebi o que era já era tarde demais. Era, provavelmente, um comerciante que não queria aquele "lixo" na calçada da frente do seu estabelecimento. Chutou o ratinho e algumas laranjas. O ratinho me parecia vivo, mas quando cheguei perto, já não estava mais. Não consegui reagir nem nada, com os fones de ouvido não ouvi se o cara disse alguma coisa quando peguei o ratinho pelo rabo e levei comigo até encontrar um canteiro de plantas com uma árvore, e deixei ali.
É muito chocante ver uma coisa viva sendo tratada como se fosse nada.
Quis então fazer um desenho em homenagem a esse ratinho.
As margaridas simbolizam inocência.
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