quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Chifres de Cristal

Tive um sonho em que chifres começavam a crescer na minha testa. Eram feitos de cristais de quartzo, em pontas retas que se geminavam. Quando eu mexia neles, sentia que eles na verdade atravessavam meu crânio. Eu me orgulhava deles.

Enquanto eu fazia esse retrato eu constatei novamente o que já constatei milhares de outras vezes - cada vez que faço um novo desenho: sempre há um momento de frustração em que eu penso "não sei desenhar!". Eu sei que parece idiota. Mas acho que todo desenho que faço começa meio horrível, aí o desenvolvimento dele se dá através de meu esforço para fazê-lo parecer bom. Até que finalmente, com alívio, fico (razoavelmente) satisfeita.
Mas é esse o processo: não é começar uma arte bonita, sabendo o que estou fazendo; é começar algo esquisito, sem fazer muita ideia do que estou fazendo, e daí me esforçar para consertar.
Acho que preciso desenhar e praticar mais (sempre digo isso e passo meses sem desenhar), pra chegar num ponto de prática em que eu realmente saiba o que estou fazendo, porque por enquanto, cada desenho ou pintura prontos me parecem puro acidente ou milagre divino. Hahahah.

Estou lendo um livro que estou amando tanto que dá vontade de transcrever ele inteirinho pra compartilhar com as pessoas. É Variações sobre o prazer, de Rubem Alves. Cada passagem é preciosa. Eu sempre levo pra ler enquanto espero na fila do correio, e fico tendo arroubos extasiados em que minha respiração involuntariamente arqueja com a emoção de ler algo que toca minha alma, que soa tão verdadeiro. E o mais interessante é que o livro fala exatamente sobre isso... a verdade do corpo, e como o corpo reage com prazer quando reconhece uma verdade que ele já sabe.

Provavelmente eu vou transcrever alguns trechos aqui ao longo dos posts. Por hora, vou deixar esta pequena fábula que ele conta no livro.

Conta-se que, um dia, um gafanhoto encontrou-se com uma centopeia que descansava no meio da folhagem.

- Dona Centopeia, eu tenho pela senhora a maior admiração. Deus Todo-Poderoso me deu apenas seis pernas. Para a senhora ele deu cem. Assombra-me a elegância tranquila do seu andar. Todas se movem na ordem certa. Jamais vi uma centopeia tropeçar. Mas, por isso mesmo, tenho uma curiosidade: quando a senhora vai começar a andar, qual é a perna que a senhora mexe primeiro?

- Obrigada pelos elogios, senhor Gafanhoto - respondeu a Centopeia. - Sua pergunta é muito interessante porque eu mesma, até hoje, nunca pensei no assunto. Sempre andei sem pensar. Perdoe minha ignorância. Jamais fui à escola do andar certo. Não fui conscientizada. Andei sempre um andar ignorante. Mas agora vou prestar atenção...

Conta-se que, desde esse dia, a Centopeia ficou paralítica.
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