sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Duas historinhas

Quando eu era criança, minha mente era diferente. Eu me lembro como num sonho estranho. Eu percebia o mundo de uma maneira muito mais interior, como se meu "eu observador" estivesse dentro de uma caixinha e olhasse o exterior por um buraco, sem estar inserido naquela realidade.

Aconteciam coisas esquisitas como pequenas premonições, visões, e tipos de sensação impossíveis de descrever - tanto pela falta de palavras adequadas quanto pela dificuldade em relembrá-las - tenho apenas uma vaga noção, um resíduo vaporoso daquela sensação ou emoção. Era uma época de sonhos vivos.

Lembro de dois eventos estranhos desses tempos.

1. Abelha

Havia uma menina chamada Débora na minha escola. Ela era loirinha, cabelos lisos cortados na altura do queixo, olhos claros, usava óculos e fazia o maior sucesso, e parecia saber disso. Era Débora pra cá, Débora pra lá, todos os meninos falavam na Débora. Eu ficava muito braba com isso. Que é que essa Débora tem de mais?

E estava ali falando mal da menina para alguma amiga, com desdém:

- Ai, e o nome dela, "Débora"... se parece com... abelha.

Minha interlocutora não deve ter entendido, afinal, Débora não soa nada como "abelha".

Anos mais tarde, estava eu na internet vendo listas de nomes e seus significados, e por acaso encontrei o nome "Débora" - significa "abelha" em hebraico.

2. Não devia ter feito isso

Eu estava no banco de trás do carro, com meu irmão. Na frente, meu pai dirigia, e minha mãe ao seu lado. Eu olhava pela janela.

Aí, por algum motivo, eu resolvi mostrar a língua. Não havia ninguém na calçada naquele momento, e eu fiz isso meio que como para colocar à prova uma idéia que eu tinha acabado de ter: "assim que eu botar a língua pra fora, vou dar o azar de ter uma pessoa ali bem na hora, que vai me ver". Foi uma coisa rápida, não sei explicar exatamente o motivo de eu fazer isso, mas foi exatamente o que aconteceu: assim que botei a língua pra fora, o carro parou num sinal e havia um homem parado bem ali, de frente pra mim, me olhando diretamente.

Recolhi a língua lentamente, com um sorrisinho constrangido (quando você é criança, mostrar a língua é uma ofensa irreparável). O homem de meia-idade sorriu, mas foi um sorriso que me deu medo. Um sorriso mau. Ele se afastou na direção de trás do carro, e eu tive um mau pressentimento. Parecia que ele ia fazer alguma coisa, me dar uma lição, se vingar.

Fiquei sentada olhando pra frente, paralisada. O sinal não abria, o carro não andava. Pensei em pedir pro meu pai avançar urgente, mas estava consciente do perigo que isso significaria, poderia causar um acidente, então fiquei calada, com um frio no estômago, torcendo...

Foi quando o sinal abriu. Meu pai arrancou com o carro, no exato segundo em que uma mão grudava no vidro da minha janela, e se arrastava para trás à medida que o carro se movia. Deixou o rastro dos dedos no vidro. Ninguém no carro percebeu nada. Eu não olhei para trás.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Coisas de dentro, do mar e do ar

Depois da menstruação, o mar de ondas revoltas de repente se tranquiliza. Me sinto mais disposta: arrumei minha prateleira de livros, tirei o pó acumulado de meses. Limpei e arrumei também minha mesa de trabalho.

Vocês sabem, o lugar em que vivemos é uma extensão de nós mesmos, então eu aliviei um pouquinho meu espírito, posso respirar melhor. Limpar o ambiente é fazer ao mesmo tempo uma faxina interna. É como diz a Tábua de Esmeralda: "O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa."

Organizei também meus insetinhos numa caixinha melhor do que a que eles estavam:

(dois destes bichinhos - a borboleta laranja e o besouro vermelho e preto - foram presentes do Allan.)

Outro dia eu fui à praia e catei umas coisinhas:

Os dois ossos são de peixe (aquela bolota com um rabinho é um osso), mas não faço idéia de qual. São ossos bem estranhos. Especialmente a bolota, que é pesada, como se fosse quase maciça, e sem nenhuma abertura.
Aí tem uma conchinha totalmente sem graça, mas que me chamou a atenção; uma outra concha mais bonita, em espiral; um pedaço do que parece ser piche endurecido, com uma conchinha encrustrada; um pedaço de craca preta (até então eu só havia visto lilases!); e um pedaço de pata de siri, que quando eu peguei, era lilás e azul, mas no dia seguinte ficou laranja! Era tão bonita.


Também rabisquei mais no caderno.

Esta era uma camélia da casa da minha avó, que estava aqui num copinho d'água, e resolvi desenhar. Fazia muito tempo que não fazia desenho de observação.

Tentando expressar um sentimento.

Esse passarinho é uma espécie de martim pescador super colorida e linda que eu achei na internet. Tentei pintar com aquarela e lápis de cor mas achei horroroso, não fez nenhum jus ao original... preciso praticar mais, aquarela é muito difícil! Ou talvez eu escolhi algo muito difícil pra pintar, haha. As cores da aquarela não atingem tonalidades tão vibrantes quanto as cores do passarinho... e faltaram muitos tons adicionais, também.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Espíritos dos Números

Quando eu estava no colégio e precisava fazer contas matemáticas, automaticamente eu criava - ou detectava - uma personalidade para os números das operações. E as operações em si representavam interações entre os algarismos - subtrações, adições, divisões, um número dando origem a outro após o conflito... era como se os números fossem coisinhas vivas, interagindo num mundo arquetípico.

É mais ou menos assim que eu vejo a personalidade dos números:

0: Masculino. Um pouco depressivo, com baixa auto estima e tendência ao isolamento. É irmão do 1, mas ao contrário deste, é calado e observador.

1: Masculino. Metido, mimado, sempre quer que sua vontade seja realizada.

2: Feminino. Calmo, harmonioso, maternal, apaziguador. Tem gestos suaves e presença pacificadora.

3: Masculino. É meio frenético, sempre querendo aprender coisas novas, meio tagarela, hiperativo, nunca consegue parar num assunto só ou prestar atenção direito nas coisas.

4: Masculino. Sóbrio, equilibrado, um tanto austero. Não gosta muito de gracinhas, sempre sabe como controlar uma situação.

5: Feminino. Rebelde, revolucionário, desafiador das normas, gosta de chocar os mais conservadores. Provavelmente usa cabelo punk.

6: Feminino. Como o 2, também é maternal, mas mais velho, matriarcal, formador de família, educador.

7: Masculino. Misterioso, estudioso, observador. Gosta de fazer experiências e de ficar recluso. É algo como um mago e um cientista, conhecedor dos mistérios do universo.

8: Feminino. Carrega em si algo sombrio, antigo, como uma bruxa idosa com uma presença pesada, ancestral, intimidadora. Observa o mundo com austeridade. Muito sábia.

9: Masculino. Meio difícil de decifrar... é algo como um político, diplomata, conselheiro, de alto escalão. Não se deixa aproximar muito. Meio metido também.

10: Masculino. Paternal, sábio, o regente de todos, mantém a harmonia.

11: Masculino. Rebelde, algo invejoso, um pouco sombrio e conspirador. Individualista, não quer fazer parte do grupo.

12: Feminino. Dinâmico, ativista, independente, aventureiro, cheio de novas idéias para melhorar o mundo. Um bom líder e guia.


É isso, resolvi parar no 12 porque parece um número chave, bom para completar um grupo.

Ah - eu não saco nada de numerologia, isso tudo é só baseado nas sensações que eu tenho quando olho pros números ou algo assim.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Saudades dos lápis.

Hoje está um dia extremamente irritante. Vou atribuir isso à TPM, mas putz, nessas horas, estar dentro do meu corpo irrita. Todas as sensações do corpo irritam. Todas as funções dos órgãos internos, as partes do corpo que encostam umas nas outras, o contato da roupa com a pele, o elástico da calça na barriga, o fato de ter cabelo na cabeça, argh! Posso eliminar minha existência física nesses dias? Quero ser apenas uma fumacinha.

De qualquer forma - fazia séculos, séculos mesmo, que eu não desenhava no papel. E a Jana Sooz havia me dado este caderno LINDO que ela mesma fez, no ano passado, e, acreditem se quiser, eu ainda não havia usado ele, simplesmente porque não tenho um pingo de vergonha na cara. Porque fiz a desfeita de abandonar meus lápis por meses.

Mas finalmente foi estreado.

O desenho parecia muito melhor sob luz incandescente (desenhei à noite). A luz do dia faz aparecer as imperfeições, a textura do papel, lava o contraste, e me irrita. Acho que os desenhos sempre ficam mais bonitos à luz de velas, sei lá.

E fica pior no scanner. Eu poderia ter tentado ajustar o scanner melhor, mas definitivamente não estou com disposição para isso. Sim?
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