domingo, 31 de julho de 2011

A jaula da civilização

"Em tais lugares (prosseguiu ele enfim), por serem simplesmente trancafiados, os animais quase sempre são mais reflexivos do que seus primos nas florestas. Mesmo os mais obtusos não podem deixar de intuir que há algo de muito errado com aquele modo de existir. Quando digo que são mais reflexivos, não estou sugerindo que adquiram o poder de raciocinar. Mas o tigre que vemos perambulando nervosamente pela cela na verdade se dedica a algo que um ser humano reconheceria como um pensamento. E esse pensamento é uma pergunta: Por quê? "Por quê, por quê, por quê, por quê, por quê, por quê?", o tigre se pergunta hora após hora, dia após dia, ano após ano, ao repisar seu infindável trajeto atrás das barras da cela. Ele não pode analisar a pergunta nem ampliá-la. Se fosse possível perguntar à criatura: "Por que o quê?", ela não seria capaz de responder. No entanto, a pergunta queima como chama inextinguível em sua mente, causando uma dor lacerante que só se aplaca quando a criatura entra numa letargia final, que os técnicos reconhecem como uma rejeição irreversível da vida. É claro, esse interrogar é algo que o tigre não faz em seu hábitat."

(Daniel Quinn, em "Ismael")

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sonho de hoje: crânios encantados

Os sonhos acontecem num ambiente estranho da consciência, em que certas informações fazem sentido apenas ali. A mente consciente, depois que desperta, não consegue mais decodificar essas informações. Então, traduz como "algo que parecia chifres, mas não era bem isso"...

É que havia algo que parecia chifres, na cabeça de "alguém", no meu sonho, mas não era bem isso. Só que no sonho eu sabia o que era, e fazia sentido.

Às vezes eu sonho com o colégio, e geralmente não é muito legal, porque eu pensava que havia acabado e aí descubro que ainda tenho aulas. Eu sempre acabo me revoltando e saindo voando pela janela.

Aí hoje, quando eu saí voando, eu fui pra um pequeno bosque com árvores altas que ficava logo do lado do colégio. Não tinha grama, apenas terra. Remexi na terra e encontrei pequenos crânios, de algum animal desconhecido, mas que pensei poder ser de algum tipo de esquilinho. Percebi que na verdade havia MUITOS daqueles pequenos crânios na terra. Às vezes, eles se pareciam desagradavelmente com diminutos crânios humanos, e deduzi que podiam pertencer a pequenos macaquinhos.

Encontrei um crâniozinho ainda com carne grudada, cheio de formigas. Este falou alguma coisa para um outro crânio, que já estava limpo, comentando ou reclamando de alguma coisa. Eu olhava.

Em certo momento, prestei mais atenção aos pequenos crânios, e percebi que eles tinham algo que parecia raízes ou pequenos tentáculos onde seria o "focinho". Achei bem esquisito.
Peguei alguns poucos crânios, uns dois ou três destes pequeninos, e uns maiores e estranhos que encontrei - que apesar de grandes, eu conseguia segurá-los todos na palma de uma mão fechada.

Tomei banho num chuveiro, segurando ainda todos os crânios dentro da minha mão esquerda fechada. Quando saí, já estava em casa. Decidi lavar os crânios na água da torneira, pois estavam cheios de terra. Lavei um por um, observando sua cor ficar mais clara, e à medida que eles ficavam limpos, eles também iam se tornando mais simpáticos comigo (antes eles estavam um pouco hostis). Acho que é porque estavam se sentindo cuidados. Lavei-os por fora e por dentro.

Coloquei-os todos sobre minha mesa, para tirar fotos.

Havia este grande crânio, que parecia ao mesmo tempo uma máscara tiki, pois era meio quadrado e plano. Não tinha uma expressão muito agradável, e de alguma forma, ainda havia algum tipo de consciência nele. Acho que havia consciência em todos eles, estavam vivos de certa maneira. Eles pertenciam a seres encantados.

Comecei a conversar com eles, enquanto tirava fotos, para amansá-los e tranquilizá-los (pois eles ainda me assustavam um pouco). Havia vários crânios diferentes, e também umas espécies de "estatuetas" destes seres. Notei que eles começaram a fazer poses e caras diferentes, apenas visíveis na tela da câmera digital, quando eu batia a foto. Ficavam cada vez mais simpáticos e amigáveis comigo, e eu me alegrei. Fiquei batendo várias fotos, e cada vez a foto saía, sobrenaturalmente, com eles fazendo algo diferente, em resposta ao que eu falava.

Eu tinha também uns cartões com desenhos de fadas, daquelas bem marotas, em grupo, brincando entre plantas. Tinham várias formas e tipos. Também as fotografei, observando-as fazerem caretas, virando o rosto, mudando de pose, cada vez que batia a foto.

Eu mal podia esperar para mostrar as fotos para alguém, mostrando como todas aquelas coisas estavam vivas.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Fadinha Verde

Não sei se já tinha postado aqui no blog, mas uma vez eu desenhei essas fadinhas gordinhas:

Eu estava cansada de ver fadas magrelinhas e etéreas e queria fadas mais terrenas, com as quais eu pudesse me identificar mais. Aí fiz essas fadinhas com corpinhos um pouco mais rechonchudos (e muito felizes assim). Sempre recebo comentários muito positivos por elas. Um dos que mais me marcou foi:

"Obrigada por retratar alguém com o meu tipo de corpo como sendo bonita."

Bom, aí eu peguei uma delas pra pintar (digitalmente, no Photoshop), e tá aí o resultado. E como eu gostei da idéia e tô muito feliz por ter aprendido a fazer isso, fiz um gif animado mostrando a progressão da pintura:

E com certeza eu pintarei as outras duas fadinhas gordinhas. E farei outras. Gordinhas, magrinhas, de várias cores, e tudo. Fadinhas, como mulheres, vêm em todas as formas e tamanhos.

* * *
E falando em mulheres e fadas, Brian Froud (meu artista de fadas favorito) fala lindamente das mulheres-fada (tradução minha):

"Como reconhecer uma mulher fada? Bem, as que eu conheço têm uma beleza que brilha de dentro. Elas deixam de lado suas asas ou disfarces animais temporariamente, para parecerem humanas. A Inglaterra é uma terra de Fadas, e estas mulheres, um dia, habitaram os bosques para atrair e inspirar os homens. As Fadas da Velha Inglaterra - as Damas dos Lagos, as Damas Brancas que habitavam cachoeiras e lugares adoráveis, as donzelas que viviam nos Morros Ocos - todas eram guardiãs da sabedoria inata da própria terra. Todas elas possuíam o conhecimento da cura. O Rei Arthur foi levado para a Ilha de Avalon por sombrias Rainhas Fadas para ser curado de suas feridas mortais. Mulheres-fada emergem para nossas consciências de dentro da própria terra; seus corpos, como os morros, escondendo segredos, impulsos criativos; suas formas luminosas na luz da lua.

Ainda existem tais musas, mas agora você não precisa estar nos bosques para vê-las. Elas estão em todo lugar. Talvez todas as mulheres são parte fadas, pois que mulher pode negar seu sangue de fada quando os portais para sua própria terra são abertos; quando a lua cheia canta sua canção insistente; quando a tristeza e a paixão e a fúria pulsam em seu corpo nas fases da lua. É por isso que as mulheres são as escolhidas das Fadas, parte da alma vibrante, fluida e emocional do mundo, que traz ao mundo dos humanos os dons Feéricos do amor transformacional."

(Brian Froud)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

WIP - Mulher Pássaro

Eba! Desde que terminei a Ariel, ando trabalhando bastante em outros desenhos/pinturas que havia começado faz tempo e deixado para trás. Correndo o risco de ser repetitiva, porque já falei isso outras vezes... é sempre assim, a vida inteira: passo meses sem tocar em desenhos, o tempo passa sem que eu perceba, mas com uma pontinha de culpa no fundo, por não estar me dedicando. Aí de repente eu sinto uma urgência em mexer com desenho, e daí passo um tempão desenhando bastante, até o próximo hiato... como se tivesse acumulado, de alguma forma, experiência durante o tempo em que não fiz nada, até o ponto em que ela transborda e eu posso desenhar de novo, e ir gastando a nova experiência até o copo ficar vazio de novo, e voltar a se encher gota a gota num período de aparente inatividade.

Na verdade isso é bastante frustrante, porque eu queria ser dessas artistas que desenham o tempo todo, carregam blocos, criam algo todo dia, treinam, se dedicam, praticam. Mas eu me perco facilmente. Pelo menos durante o tempo inativo, aparentemente, algo acontece no subsolo sem que eu perceba. Gostaria de acreditar que está tudo certo, que tudo bem ser assim, que minhas regras naturalmente são essas, e não que algo está errado e que eu "deveria" estar fazendo outra coisa mas ainda sou incapaz.

Bom, então trabalhei mais nesta mulher com crânio de pássaro que comecei meses atrás. Agora ela ganhou um ninho, e ovinhos. Lógico que não planejei nada disso no começo, haha.

Ainda não está terminado, mas eu fiz um gif animado mostrando algumas fases da ilustração até chegar no estágio atual:

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A colecionadora de ossos

O Fernando, do blog Page Not Found - um blog de notícias inusitadas do site O Globo - me convidou para falar do meu "hobby incomum" na seção "Eu - Not Found":

A colecionadora de ossos (e outras coisas mais)

Como tirei várias fotos dos meus ossinhos pra mandar pra ele, vou postar algumas aqui no blog também!

A coleção do Texas: crânios de coiote e de guaxinim, e vértebras, chifres e bacia de veado.


A duplinha de beija-flores mumificados.


Ossinhos de um bem-te-vi.


Ossinhos de um passarinho pequeno, talvez um pardal.


Algumas penas de aves diversas, todas encontradas num único passeio no parque! E também uma costela de algum bicho desconhecido. As negras com brilho azul-esverdeado são minhas favoritas.


Peninhas diversas na estante.

Asas de besouro, joaninhas, mariposa e borboleta (linda, perolada).


Sempre bom lembrar que nenhum desses bichos foi morto para a obtenção de seus ossinhos, corpinhos ou asinhas. Todos já foram encontrados mortos.

domingo, 10 de julho de 2011

WIP - Esfinge

Peguei outro desenho velho - acho que é de 2008 - pra colorir no photoshop. Agora essas asas vão me dar um trabalho da porra!
Quando eu terminá-lo, posto aqui no blog.

As cores que escolhi pras asas foram em grande parte inspiradas pelas cores deste passarinho LINDO que é o abelharuco, bee eater ou comedor de abelhas:


Ah! Algumas ilustrações minhas foram publicadas na edição 11 do Jornal Relevo, um jornal impresso de crônicas aqui do Paraná. Vocês podem ver o pdf aqui. Também foram publicados nesta mesma edição alguns contos da Georgia. Vejam o blog dela e suas delicinhas escritas =)

sábado, 9 de julho de 2011

Ariel Finalizada

Então, depois de um bilhão de anos e meio, finalmente terminei a minha Ariel. É, acho que tô satisfeita.

Inicialmente, ela usava aquele sutiã de conchas que ela usa originalmente na versão Disney, mas à medida que a pintura evoluiu, resolvi tirar. Não faz muito sentido uma sereia usar sutiã. Nem pra esconder, nem pra segurar! Achei que ficou bem melhor assim.

Pintado no photoshop.

Ah, sim, você pode ver o começo da pintura aqui e aqui.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Os Olhos do Sol

Esta manhã tive um estranhíssimo pesadelo.

Acordei muito assustada, exatamente às 6h da manhã.

Eu estava com dois amigos em algum lugar perto do mar. Estava anoitecendo. Havia morros, montanhas, uma cidade, na direção em que o Sol havia se posto, à minha direita; silhuetas negras contra o céu avermelhado. À frente, estava o mar, quase invisível na escuridão.

Havia nuvens douradas no céu. Em algumas partes, elas tomavam forma de nuvens mammatus, muito bonitas. Havia também dois pedaços de arco-íris noturnos, sobrevivendo ao anoitecer.

Fui pegar minha câmera fotográfica para tirar fotos daquela linda cena. Mas algo me interrompeu enquanto eu fotografava. Vislumbrei de repente um disco de luz refletido em algo, e um de meus amigos gritou. Me virei, e foi quando eu vi.

No horizonte, o Sol brilhava. Ele já devia ter se posto, mas estava ali, brilhante demais para sua posição poente, no ponto cardeal errado. Apenas metade dele estava acima do horizonte, e dois olhos circulares brilhavam como olhos de gato, como se espiasse por cima de um muro. Ele projetava uma faixa de luz direta e linearmente sobre nós, na horizontal, como se estivesse no mesmo nível que nós, na superfície terrestre. Era como se ele olhasse diretamente para nós, e foi isso que um dos meninos gritou: "está olhando diretamente para nós, derramando suas lágrimas (de luz)".

Foi a coisa mais aterrorizante que já vi e senti. Não havia para onde ir, não havia como fugir do olhar do Sol. Me joguei no chão, cobrindo-me com as mãos, fechando os olhos, em pânico total. Estarmos exatamente na linha do olhar do Sol enquanto ele se punha era uma infeliz coincidência, que permitiu que enxergássemos seus olhos geralmente invisíveis, assim como só é possível enxergar o reflexo dos olhos do gato dependendo do ângulo de incidência da luz e de onde se olha. Só era possível enxergar os olhos do Sol naquele momento porque eles estavam exata e diretamente apontados em nossa direção.

Eu queria fugir, gritei por ajuda. A luz do olhar do Sol continuava sobre mim, eu via a forte luminosidade mesmo através das pálpebras fechadas. Pressentia que meus amigos tentavam de aproximar, em meio a toda aquela luz, mas muito amedrontados.

Não lembro como a cena terminou. Só sei que acordei extremamente aterrorizada e demorei um bom tempo para conseguir dormir. Por sorte, já estava amanhecendo.

Quando acordei, pareceu-me que eu conhecia uma imagem que me remetia ao que eu havia visto no sonho. Na minha mente, era uma pintura de um disco solar com rosto, e grandes olhos redondos. Levantei imediatamente para pesquisar no meu arquivo de imagens. Era esta aqui:

É de um artista polonês chamado Zdzislaw Beksinski, conhecido por suas paisagens fantásticas de pesadelos pós-apocalípticos. Não é exatamente semelhante ao meu sonho, mas transmite quase a mesma sensação de terror, de ver grandes olhos fantasmagóricos de algum astro gigantesco direcionados diretamente a você.
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