terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Retorno de Saturno

Então fiz 30 anos. Posso dizer que este é o momento em que mais me sinto "eu mesma", dona de mim, em toda a vida que já vivi. É uma sensação meio fascinante chegar a certa idade e perceber-se tão diferente, de uma forma inesperada, do que era. Sempre digo que envelhecer é uma dádiva. Não é à toa que mulheres de 30 anos (e mais velhas que isso) são estigmatizadas pela sociedade machista; uma mulher que alcança a maturidade se torna menos manipulável, menos impressionável, e portanto, menos controlável. Ou seja, mais perigosa aos olhos daquele que acham que mulheres devem ser domesticadas e submissas...

Por volta dos 28-30 anos, astrologicamente, ocorre o Retorno de Saturno, momento em que Saturno completa 1 ciclo em torno do sol, retornando à posição em que estava no momento do seu nascimento. Saturno é regente do tempo, dos ciclos, da morte, da maturidade, então o fim de seu ciclo e o início de um novo é muito marcado por esse conceito de morte. Sua identidade antiga, jovem, morre, para que um novo eu mais maduro venha a existir em seu lugar. É um novo nascimento.

Dizem que o período que antecede o Retorno é o mais difícil, assim como os momentos que antecedem a morte de uma pessoa velha ou morimbunda; esses momentos da aproximação podem ser dolorosos, muito pior que a morte em si, que vem como um alívio. Enxergar a morte se aproximando pode ser assustador, o fim de uma identidade, o fim da vida... Saturno grande e opressor crescendo no nosso céu, obscurecendo nossa visão. Mas depois que passamos pelo véu, tudo é diferente.

Em homenagem ao meu Retorno, fiz um retrato da Mãe Saturno.


Coisas que Saturno me ensinou:

1. Amadurecimento vem com a idade, a experiência e o passar do tempo, mas também é algo que precisa ser ativamente buscado. Nem sempre é algo que automaticamente cai no seu colo com a idade. É preciso refletir sobre os acontecimentos da vida, buscar desvendar suas lições, investigar seus mistérios, olhar muito pra dentro, perscrutar o escuro. Pode-se ficar mais velho e nunca amadurecer o que se precisava, se não tiver essa vivacidade interior.

2. Se você não aprende uma lição, não desfaz um nó, sua vida (que é só mais uma forma de dizer "você mesmo") te coloca em situações da mesma natureza repetidamente, até você identificar o que precisa aprender. Mas não apenas isso: mesmo com uma lição aprendida, você pode voltar a viver situações semelhantes, e achar que está andando em círculos, mas na verdade isso acontece para que você aprenda a ver novos aspectos daquela situação, que não viu antes - talvez até porque ainda não tinha condições e aprendizado para vê-las e precisava avançar algumas etapas para conseguir enxergar. Na vida ocorrem ciclos, mas não é repetição do mesmo: nem você nem as águas do rio em que entra são os mesmos, apesar de ainda ser aquele rio.



3. O sentido de uma situação só pode ser percebido depois que o ciclo se completa, e você pode contemplar o quadro inteiro. Enquanto tiver peças faltando, não será possível tirar dali um sentido completo. Isso tanto vale para situações pontuais, para fases da vida, e para a vida como um todo: se ainda estamos na metade do caminho, ainda dentro do labirinto, não tem como visualizarmos o caminho do labirinto inteiro, visto de cima. Portanto, não é preciso se angustiar por não compreender algo; melhor prestar atenção por onde se anda e o que se pode aprender por ali, quais peças se pode juntar.

4. Não se pode acelerar o tempo e seus ciclos. Se um tempo é necessário para que algo se resolva, não adianta ter pressa, bater o pé, chorar, esbravejar com o punho aos céus. O tempo tem seu compasso. Cada estação sucede a outra, no momento que deve vir. Não se pode apressar o amadurecimento de uma fruta. A paciência nos é ensinada por bem ou por mal. Por isso tantos consideram Saturno um tirano opressor, porém, isso é apenas porque os humanos são teimosos e arrogantes, querem sobrepujar as forças da natureza, e ficam descontentes por não poderem...

Versão alternativa, com arco e um símbolo. Fiquei na dúvida se incluía esses elementos ou não, preferi deixar sem para que desse uma impressão maior da amplitude do céu escuro.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Fotos por Gabriela Minks!

Ano passado, tive a honra de ser fotografada pela linda Gabriela Minks. Admirava o trabalho dela já fazia tempo, então fiquei muito feliz quando ela veio pra minha cidade e pôde me fotografar! Ela tem um olhar muito delicado para fotografia, quase sempre com um toque de natureza, um ar romântico onírico e etéreo, muito encantador.

Ela fez com que minhas fotos ficassem parecendo saídas de um conto de fadas!


Para conhecer e acompanhar mais do trabalho da Gabriela, ela tem uma página no facebook: Gabriela Mink Fotografia
Lá tem links também para o Flickr e formas de contato!



sábado, 16 de janeiro de 2016

Eclipse

Não lembro se tinha falado aqui, mas meu monitor tinha estragado e eu estive usando um mais simples temporariamente, e por isso eu fiquei um tempo sem poder fazer pinturas digitais, pois o monitor que eu tava usando não era muito bom pra isso. Até cheguei a pintar mas deixei a pintura em stand by pra terminar de verdade quando tivesse um monitor bom de novo.
Então, consertei meu monitor, viva! E pude terminar a pintura e fazer outras mais!

Neste post vou postar a "Eclipse", e um pouco do processo dela.


Curiosamente, no início essa pintura era bem diferente, começou assim:


Depois acabei invertendo e a pintura foi seguindo outro caminho:


O último quadro é como eu tinha largado a pintura até conseguir consertar meu monitor. Retrabalhei todo o fundo, pois não estava satisfeita com as nuvens (apesar de ter passado um bom tempo nelas!). Nuvens são mais difíceis do que parecem!

Eu praticamente sempre estive usando apenas um pincel redondo, normal, pra fazer as pinturas, mas sentia falta de texturas e pinceladas mais "orgânicas" e menos "plásticas", que sempre achei que davam uma aparência mais rica às pinturas digitais que admirava, então experimentei outros pincéis. Geralmente aplico algumas texturas no final da pintura, mas dessa vez apenas mantive as texturas das pinceladas mesmo.

Alguns detalhes (clique para ver maior):


Também fiz um gif animado mostrando o processo:


Ah, nem me dei conta que este é o primeiro post do ano! Espero neste ano postar mais vezes, heheh!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Inktober 2015 - Parte IV

Pois é, não fui até o fim com o Inktober deste ano, de novo. Mas fui mais longe que ano passado. E até que tive um bom motivo: fiquei ocupada demais tatuando, e não consegui fazer os desenhos diários do Inktober por cansaço (eu podia ter feito qualquer coisinha simples, é claro, mas eu não consigo fazer coisinhas simples por exigir muito de mim mesma).

Mas aqui estão os últimos Inktobers:

16 e 17.
 Juntei esses dois porque achei que se complementavam bem juntos. Gosto muito do efeito texturizado do nanquim espalhado na água, ele faz minúsculos caminhos e ramificações no papel.




18.
Fiz esse alguns dias depois, num esforço de continuar até o fim do mês, em vão. Utilizei pela primeira vez uma tinta que havia comprado há muito tempo, um vidrinho de aquarela líquida. Gostei muito do tom ferrugem, e a tinta é bem pigmentada (a marca se não me engano é Aqualine - não estou com o vidrinho comigo para verificar). Também usei guache branco.

* * *
E como mencionei, estou tatuando, e uma das tatuagens que fiz foi um dos desenhos do Inktober, a pedido da cliente. Gostei muito de fazê-la!


Estou trabalhando num estúdio junto com mais 3 queridos amigos, no centro de Curitiba. Para quem quiser seguir nossa página do facebook, segue o link:
https://www.facebook.com/studiomorphose/
Depois falo mais sobre como está sendo o aprendizado e o trabalho com tatuagem!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Inktober 2015 - Parte III

Continuando a sequência do Inktober!

Dia 11.
Uma Sheela na gig! Sheela na gigs são figuras históricas de mulheres nuas exibindo uma vulva de tamanho exagerado. Eram esculpidas e geralmente encontradas em edificações como igrejas e castelos, sendo mais comuns na Irlanda e também na Grã-Bretanha. Acredita-se que elas afastam os espíritos do mal e oferecem proteção. Acho bastante fantástico o conceito da exibição da genitália feminina como tendo o poder de espantar espíritos malignos. Embora há quem tenha feito interpretações misóginas deste conceito, creio que se trata do reconhecimento ancestral do poder milagroso da vulva, sobre a geração da vida e consequentemente sobre a morte. Nada melhor para manter o mal afastado do que o vislumbre daquilo que é, simbolicamente, o poder criativo e devorador de todo o universo.

Foi a primeira vez que usei o nanquim com um bico de pena. Acho atraente, mas ainda não me dei muito bem com a ferramenta... talvez por não ser da melhor qualidade (tanto o bico quanto o papel que estou utilizando), talvez por falta de prática...

Dia 12.
E por falar em genitálias femininas, fui no embalo e desenhei uma Baubo dançante. Já desenhei a Baubo antes e escrevi um post sobre ela.

Dia 13.
Neste dia eu estava sem paciência pra desenhar, mas não queria deixar de fazer, então fiz um desenho baseado numa foto de uma raposinha dormindo, pra não ter que pensar muito. Estava tendo dúvidas sobre se continuaria com o Inktober... acabei continuando.

Dia 14.
Esse monstrengo foi bem divertido de fazer. Acho que desenhar monstros proporciona uma liberdade agradável ao desenhar. Também foi a primeira vez que fiz todo o desenho apenas com pincéis, sem usar canetas ou bico de pena.


Dia 15.
A imagem de um demônio ou sátiro chateado, talvez frustrado amorosamente, apenas me veio à mente. Gosto de desenhar demônios tristes, talvez gerar por eles uma empatia que não é comum se ter por esses seres.

Continuaremos nos próximos posts...

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Inktober 2015 - Parte II

Seguem mais 5 desenhos do Inktober!

Aqui comecei a alegria do marcador. Tenho um cinza da marca Tombow mas nunca tinha usado nem dado importância a ele. Achei muito gostoso de usar, pela suavidade e pelo formato de pincel, e facilita na hora de fazer umas sombras, ao invés de usar nanquim diluído. Vou ver se arranjo outros tons de cinza.


Dia 6.
Eu nunca havia desenhado uma caveira humana antes (exceto talvez em uma ou outra ocasião como um detalhe dentro de uma composição). Eu gosto de crânios de animais em geral, mas caveiras humanas me perturbam um tanto. Sempre tive um pouco de medo delas. O fato é que ao pesquisar por referências e ver fotos de crânios, comecei a ficar tão incomodada que pensei em desistir da ideia de desenhar uma caveira. Mas fui em frente, enfrentando meus medos, hehehe. E no final, acabou sendo bem divertido desenhá-la.

Enquanto desenhava, fiquei pensando muito nessa questão do por quê crânios humanos me deixam desconfortável, tentando chegar à raiz desse meu medo. Talvez pelo fato de serem ossos da mesma espécie que eu, pela natureza de um ser humano ser tão diversa da dos outros animais em alguns aspectos... Acho que é a estranheza frente à contemplação de algo que era vivo, e não é mais - algo que permanece ali, inanimado, depois que a vida vai embora. Creio que esse sentimento é a contemplação do próprio mistério da morte, e consequentemente da própria vida. Não é à toa que a caveira é o símbolo máximo da morte, e de fato era (e é) usado como objeto de meditação e memento mori em muitos contextos na história, na religiosidade, etc. É um símbolo extremamente forte e que pode significar muitas coisas - morte, perigo, sabedoria, ancestralidade, consciência da passagem do tempo, igualdade entre os seres humanos...


Dia 7.
Num tópico mais leve, nesse dia resolvi desenhar alhos e cebolas. Amo o cheiro.

Dia 8.
Neste dia tive vontade de desenhar asas.

Dia 9.
...e mais asas, de outro tipo. Não é segredo meu gosto por mariposas...
Tenho experimentado pontilhismo, e apesar de achar lindo o resultado, requer uma paciência que eu dificilmente tenho. Neste desenho foi onde mais usei, embora nem pareça tanto, mas depois disso jurei que não inventaria de fazer tanto pontilhismo em um desenho, hahaha.


Dia 10.

Me incomoda a dificuldade de digitalizar artes. O fato de meu monitor ter estragado e eu estar usando um mais simples talvez contribua para eu ficar incomodada com a forma como as cores são mostradas em minha tela. O contraste do preto diminui muito, em comparação com como é o desenho na vida real, e muitos tons mais sutis se perdem, prejudicando o aspecto geral e a fidelidade ao desenho original. Mas esse é o problema da arte digital ou digitalizada - ela é bem "subjetiva", já que cada monitor ou tela digital tem uma calibragem ou capacidades diferentes de exibição de cores, então cada pessoa vai ver seu trabalho de um jeito ligeiramente diferente. E isso me incomoda bastante! Hahaha. Além disso, a luz do scanner muitas vezes reflete onde não deveria em partes do desenho, especialmente em partes como traços de nanquim, que às vezes ficam um pouco brilhantes. Usei spray fosco sobre ele para tentar amenizar esse problema, mas mesmo assim tive que retocar digitalmente.

É isso por hora. Seguirão os posts com os desenhos do Inktober!

domingo, 11 de outubro de 2015

Inktober 2015 - Parte I

Faz um tempão que não atualizo o blog e tem tanta coisa nova pra postar que preciso escolher alguma!
Ano passado tentei fazer o Inktober, mas acabei não indo até o fim. Esse ano estou fazendo novamente e tentando me manter determinada. Ano passado eu até errei um pouco no conceito, pois o "ink" não se refere a qualquer tipo de tinta como achei que fosse (eu fiz algumas pinturas só em aquarela), então esse ano estou me concentrando em usar apenas nanquim, acompanhado às vezes de aquarela ou marcador.
Até o momento foram 10, neste post vou colocar até o 5, depois vou colocando o resto em próximas postagens.

Dia 1.

É um desafio difícil desenhar todo dia. Afinal sempre tem aqueles dias em que não estamos com a menor vontade de desenhar, ou sem inspiração, ou nada que desenhamos parece sair bom. Além disso, não consigo fazer desenhos muito simples, de forma que sempre acabo gastando um tempo fazendo detalhes que nem sempre estou com paciência de fazer - mas faço assim mesmo, pois vejo como um desafio de disciplina. Desenhar todo dia é algo que eu acredito muito que deveria fazer, algo essencial para a evolução, mas geralmente minha instabilidade *existencial* me impede disso. Por isso quero levar a sério esse desafio, hehe!

Dia 2.

Também confesso que nanquim não é meu material preferido. Gosto muito mais do grafite, se fosse um Graphitober seria bem mais fácil pra mim, hehe. Mas esse é outro aspecto do desafio. Lidar com materiais com que não temos tanta afinidade ou facilidade nos força a aprender e buscar soluções. Com tudo isso, produzo alguns desenhos que não faria normalmente.
Dia 3.

Todos os desenhos são pequenos, no máximo um tamanho A5, às vezes menores. Tento colocar no papel algumas ideias que podem me servir de inspiração para desenhos mais elaborados mais tarde, e também ir praticando o traço em geral.
Em quase todos os desenhos eu faço algo que acho que não fica muito bom e eu penso "bom, da próxima vez já sei como não fazer", ou, "agora já sei qual aspecto preciso melhorar".

Dia 4.

Em alguns dias eu realmente sofro pra conseguir desenhar. Teve dia em que eu joguei uns 2 desenhos fora antes de conseguir fazer um que me deixasse satisfeita. Dá vontade de desistir e deixar de fazer naquele dia, mas meu perfeccionismo não me deixaria interromper a linearidade do desafio e pular um dia, nem mesmo fazendo 2 no dia seguinte, hehe! Então insisto e no final até acaba saindo algo inesperado. Mas meu processo criativo é quase sempre acompanhado por muitas crises e existencialismo. Tudo que acontece enquanto eu desenho me leva a reflexões sobre a arte, a vida, a criatividade, auto conhecimento. Não consigo fazer nada de forma despreocupada, tudo é muita matéria para pensamento.
Dia 5.

Acho que o símbolo de Capricórnio resume bem a forma dificultosa e introspectiva com que eu lido com a criatividade e a criação, hehe. Porém, sempre em frente!

Continuarei postando os próximos desenhos em breve! =)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Nada se cria

A frase "nada se cria, tudo se copia" parece ser cada vez mais verdadeira em tempos de internet, em que a maior possibilidade de divulgação e acesso a obras artísticas facilita muito a cópia e o plágio desses trabalhos, juntamente com o pensamento de "se está na internet, não tem dono".

Não é que cópia seja sempre algo ruim. Pelo contrário, copiar, de uma forma ou outra, é quase essencial para que se aprenda a desenhar, contanto que seja com o objetivo de treino e aprendizado. A questão é quando essas cópias deixam de ser apresentadas como estudos, com os devidos créditos da fonte, e passam a ser apresentadas como se fossem obras autorais, criações próprias, tomando para si os créditos de uma criatividade que não lhe pertence.

 "Soul of a Bird", o sketch original, e a pintura digital, de 2010.

Obra plagiada, e quando postei no meu facebook, mesmo tendo ocultado o nome dos dois autores, um deles apareceu e ainda por cima insultou minha obra por tabela...
Mais duas, apaguei as assinaturas. Um deles, quando comentei sugerindo que se creditasse a artista original, respondeu rispidamente que não foi nada copiado pois "todo mundo desenha mulher pássaro" ou qualquer coisa assim.


E quando acontece com a gente... bom, é natural que isso nos aborreça. Há quem venha dizer que deveríamos ficar felizes por alguém gostar tanto do que fazemos que queira fazer igual, ou que estamos "inspirando" outras pessoas, ou nos console com o fato de que o/a copiador/a "nunca será tão bom". Mas a questão é que não se trata só disso. Fazer arte não é algo trivial, não é só "fazer algo bonito" com alguma técnica. Artistas costumam ter toda uma trajetória no desenvolvimento de sua arte e colocar muito de sua alma no que faz. Às vezes uma obra em particular tem motivações emocionais, pessoais, até mesmo espirituais. Coloca-se na arte suas próprias percepções sobre o mundo, passando tudo por um "filtro" de visão pessoal. E quando alguém se apropria daquela criação, que foi parida com carinho e esforço, é um tremendo desrespeito além de uma atitude que demonstra pobreza criativa.

Todo artista provavelmente tem suas fontes de inspiração, em outros artistas ou em elementos do mundo. No entanto, o trabalho é o de juntar todos aqueles ingredientes recolhidos pelo mundo, ou de outras obras, e cozinhar na própria panela, filtrar com seu filtro próprio e único, para gerar algo novo. É claro que haverá elementos em comum com outras obras; isso por si só não caracteriza uma cópia ou plágio, mas sim todo o conjunto da obra, o simbolismo pessoal, o traço, o mundo que está sendo expressado ali.

Cada pessoa tem seu filtro através do qual atravessa os elementos do mundo para produzir algo único. Mas existem pessoas que vêem o produto daquele filtro de alguém, crêem "se identificar" com ele e pegam o resultado para si, já mastigado, e o reproduzem. Me parece que essa atitude envolve uma ânsia de ego, de tomar aquilo para si, como se não bastasse admirar o fato de que outra pessoa o fez, mas poder dizer que o fez também. Eu sei disso porque sinto o mesmo quando vejo muitas obras de artistas que admiro. Eu lamento não ter sido eu a ter feito aquilo, eu sinto vontade de poder fazer igual, porém desejo desenvolver e expressar algo só meu, com a minha própria substância, utilizando também toda aquela beleza admirada como combustível. É algo meio melancólico, na verdade, o fato de que não podemos ser tudo que admiramos, não podemos ser todas as pessoas que invejamos, só podemos ser nós mesmos; mas mesmo o que somos pode ser transcendido, e o interessante é que quanto mais nos auto-transcendemos, mais "nós mesmos" nos tornamos. É bem mais difícil e até doloroso trilhar o caminho não trilhado por mais ninguém além de nós, ao invés de usar uma estrada já criada por alguém, mas certamente é muito mais gratificante e real.
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