quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Baubo, a alegria que mora no ventre

Desenho de Baubo em grafite, cores e texturas digitais.
Baubo é uma deusa grega pouco conhecida e representada de forma um tanto estranha: uma figura feminina sem cabeça nem braços, com o rosto no ventre. Às vezes, os olhos ficam nos seios e a boca é a própria vulva. Ela também é representada como uma mulher expondo de forma jocosa uma vagina de tamanho exagerado entre as pernas. Ela é a deusa do ventre e do humor, especialmente do humor obsceno.

Ela desempenha um papel muito importante no mito de Deméter e Perséfone: a deusa mãe da terra, das estações e das colheitas encontrava-se inconsolável pela perda de sua filha Perséfone, raptada por Hades e levada ao submundo. Ela havia buscado por sua filha por toda a terra, sem êxito, e tamanha era sua dor e seu sofrimento que ela amaldiçoou todos os campos férteis do mundo, impedindo tudo de nascer: o trigo, as flores, os bebês. O mundo tornou-se estéril e esgotado enquanto ela chorava sua dor.

Quando ela, exausta, recostou-se na pedra de um poço, chegou por ali essa mulher engraçada. Ela veio fazendo uma dancinha com os quadris, balançando seus seios, e Deméter não pôde deixar de sorrir quando a viu. Depois, ela começou a contar à deusa algumas piadas picantes e engraçadas. Deméter começou a sorrir e aos poucos o riso se abriu em gargalhadas, e as duas juntas riram. E foi esse riso que tirou Deméter de sua depressão, dando-lhe energia para continuar a busca de sua filha, que terminou tendo sucesso, e assim as terras voltaram a vicejar.

Outra versão da história conta que depois de conversar e contar piadas a Deméter, Baubo terminou levantando sua saia e foi isso que fez Deméter gargalhar até a barriga doer. As histórias variam a respeito do que foi que Deméter viu debaixo da saia de Baubo que a fez rir tanto, mas seja o que for, foi o que a tirou da depressão.

Para além da ideia material de "concebedor de vida humana", o ventre feminino também é o centro de criatividade. Todas as coisas, como símbolos, funcionam por analogia. O ventre é um centro criativo e de vitalidade, lar da libido e do fogo que acende nosso interesse pela vida, é o caldeirão que cozinha nosso entusiasmo, que alimenta nossa alma. Ele também contém o riso visceral e selvagem que cura as tristezas, aquele riso que vem bem do fundo de nossas entranhas...

Baubo nos traz muitas lições a respeito da sacralidade e do poder do corpo feminino, especialmente de sua sexualidade. Infelizmente o significado desse "humor obsceno" de Baubo é facilmente mal interpretada nos dias de hoje, em nossa sociedade moderna patriarcal, sendo confundida com simples vulgaridade...


Soube a respeito de Baubo pela primeira vez no livro Mulheres que Correm com os Lobos, e recomendo muito sua leitura para entender mais sobre o que Baubo representa (entre muitas outras belezas)... segue um trechinho:

"O sagrado e o sensual/sexual vivem muito próximos um do outro na psique, pois eles despertam nossa atenção por meio de uma sensação de assombro, não por alguma racionalização, mas pela vivência de alguma experiência física do corpo, algo que instantaneamente ou para sempre nos muda, nos sacode, nos leva ao ápice, abranda nossas rugas,-nos dá um passo de dança, um assobio, uma verdadeira explosão de vida.

No sagrado, no obsceno, no sexual, há sempre uma risada selvagem à espera, um curto período de riso silencioso, a gargalhada de velha obscena, o chiado que é um riso, a risada que é selvagem e animalesca ou o trinado que é como uma volata. O riso é um lado oculto da sexualidade feminina: ele é físico, essencial, arrebatado, revitalizante e, portanto, excitante. É um tipo de sexualidade que não tem objetivo, como a excitação genital. É uma sexualidade da alegria, só pelo momento, um verdadeiro amor sensual que voa solto e que vive, morre e volta a viver da sua própria energia. Ele é sagrado por ser tão medicinal. É sensual por despertar o corpo e as emoções. Ele é sexual por ser excitante e gerar ondas de prazer. Ele não é unidimensional, pois o riso é algo que compartilhamos com nosso próprio self bem como com muitos outros. É a sexualidade mais selvagem da mulher."



(Clarissa Pinkola Estés)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Meu primeiro livro

Quando eu era criança eu gostava de fazer livrinhos dobrando páginas sulfite e grampeando. Eram sempre sobre os animais que eu gostava no momento: tem um sobre um jardim de beija-flores de todas as cores, outro sobre uma família de garças, outro sobre um passarinho vermelho, uns com dinossauros... mas este sobre um gatinho que queria um dono tem escrito no verso "1º livro". Não sei se é o primeiro que eu fiz mesmo, ou se só o considerei o primeiro "oficial". Ele é de 93, então eu tinha 7 anos quando fiz.

Lembro que colocaram ele em exposição num mural da minha escolinha, perto da recepção, e eu fiquei meio ofendida porque sentia que eles estavam tomando algum crédito por aquilo - "vejam como produzimos alunos capazes e criativos!" - mas o mérito era inteiramente meu, a escola não tinha nada a ver com isso. Aliás, sempre detestei escolas.

Então, vamos lá.

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Penas Mágicas

"Os Xamãs costumam guardar penas que são colhidas ao longo do tempo e quando sentem que é o momento, escolhem uma pena e dormem com ela. Fazem e evocação da energia do animal, colocam o intento de se projetar junto com ele, para que o animal possa mostrar neste Vôo Xamânico um determinado o caminho necessário e desejado naquele instante, para obter ensinamentos."

(Vitor Hugo França)

Junto penas onde quer que eu vá. Em viagens, passeios, em parques ou nas ruas da cidade, em todo lugar pode-se encontrar uma pena de pássaro. Tenho guardadas incontáveis penas, de todos os tamanhos, formas e cores, e acho que são minha coisa favorita de se colecionar.

Gosto especialmente das iridescentes e sempre sinto como se tivesse recebido um presente mágico quando encontro alguma pena com iridescência. E esses dias realmente aconteceu uma magia!
Eu estava olhando algumas fotos guardadas e me deparei com uma foto de uma pena de magpie ("pega-rabuda" em português... sim, pois é) que eu tinha salvo. Era linda, iridescente e colorida, uma pena da cauda, e eu quis muito ter uma pena daquela. Até fui procurar na internet pra comprar, mas só encontrei penas provenientes de caça, apesar de ser regulamentada, não queria penas com essa proveniência. Então deixei pra lá.

Uns dias antes, a Giovana, que já havia me enviado de presente algumas penas de pombos que ela recolheu em Dublin, disse que estava com algumas penas novas que tinha pego por lá, numa época diferente do ano, portanto penas diferentes, e perguntou se eu queria... Penas nunca são demais, então aceitei! Eis que quando o envelope chega e eu abro... ela casualmente dizia na cartinha que algumas das penas provavelmente eram de magpie. E dentre as penas havia uma pena da cauda do magpie, como a que eu havia visto na foto e desejado! Foi como mágica acontecendo, se materializando na minha frente. Sou muito grata pelo presente, tanto da Giovana quanto da sincronicidade do Universo, hehe! ♥

Ela mandou esse versinho tradicional que diz que dependendo do número de magpies que você vê juntas, pode ser sinal de boa ou má sorte!
A pena mágica de magpie...

A magpie (chamo pelo nome em inglês porque é muito esquisito falar "pega-rabuda" hahaha) é um pássaro cercado de lendas. Na Europa ela é vista como um sinal de mau agouro; no folclore italiano e francês, acredita-se que magpies se sintam atraídas por objetos brilhantes e pedras preciosas, que roubam para enfeitar seus ninhos. Na Suécia é associada à bruxaria. Na Noruega acredita-se que é um pássaro ladrão, e também é associado a seres feéricos do folclore local.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Festival Sul Americano dos Sagrados Saberes Femininos

Semana passada estive no 1º Festival Sul Americano dos Sagrados Saberes Femininos e posso dizer que foi uma experiência e tanto. Acho que eu não conseguiria dar nenhuma descrição muito objetiva do evento, porque além de já "normalmente" viver muito dentro do meu mundo particular, estou num momento muito específico em que minha consciência, observadora de mim mesma e do mundo, parece pairar suspensa no espaço... E é muito difícil descrever qualquer coisa, nesse mundo de coisas-sem-nome-nem-forma. Então enquanto estive lá eu só vivia o momento, sem buscar interpretações ou racionalizações, e só mais tarde as percepções se assentariam na minha mente.

Cerimônia maia com as abuelas da Guatemala, fotografia por Leticia Ribas.

O Festival foi um encontro com a presença de abuelas da América Latina, anciãs indígenas, líderes espirituais femininas, as chamadas mulheres-medicina, xamãs e afins, com cerimônias com plantas de poder, terapias, yoga, danças, celebrações, círculos de mulheres para troca de saberes, temazcais, tudo isso numa pousada chamada Tempero da Serra, na região de Piraquara, em Curitiba, PR.

domingo, 30 de novembro de 2014

Da dualidade vem a trindade

Por motivos de instabilidade (minha única constante), eu não terminei o Inktober. Mas pelo menos nos poucos dias que fiz pude fazer umas experiências interessantes usando técnicas que até hoje havia utilizado muito pouco. Me inspirei em ilustrações alquímicas pra fazer os desenhos abaixo, em nanquim (caneta e aguada).


São desenhos que fiz no sketchbook, portanto em tamanho pequeno, então ainda gostaria de refazê-los em tamanho maior e com mais dedicação.

* * * *

Ah! Fui incluída dentre outros artistas neste post do blog Estatuária, e eu me senti muito feliz com a forma como ela descreveu minha arte! ♥

Eu geralmente não consigo descrever minha arte, coisa que até me incomoda fazer pois parece que se faço algo que utiliza linguagem visual e depois tento expressar ou explicar aquilo por palavras, acontece um conflito, uma limitação, é fazer algo muito extenso caber numa caixa muito pequena. Eu quase nunca penso em significados ou explicações completas para o que faço porque eu mesma não sei, prefiro deixar que tudo aconteça intuitivamente. Mas com frequência, outras pessoas e amigos compartilham comigo o que vêem no que faço e eu descubro interpretações que eu mesma não sabia que estavam ali. E acho isso maravilhoso.

sábado, 11 de outubro de 2014

Demônios

Eu quase não desenho figuras masculinas porque não é algo com que eu consiga facilmente me identificar. Mas em algumas ocasiões elas aparecem:



Em geral quase todos os meus desenhos são aspectos de mim mesma que estou tentando expressar ou com que estou tentando lidar. Reparei que geralmente as poucas figuras masculinas que desenho são demônios.

Acredito que temos forças chamadas "femininas" e "masculinas" dentro de nós. Jung fala de animus e anima. Na verdade não gosto de usar as palavras "feminino e masculino" nesse contexto porque na nossa cultura elas são muito confundidas com homem e mulher, concepção com a qual não concordo, mas estes acabam sendo os símbolos aos quais recorremos para expressá-las: de alguma forma há aspectos "masculinos" dentro de mim que expresso na forma de homens-demônios. Eles nunca são maus. Eles falam de raiva, rancor, luxúria, amargor, caos, dor, poder obscuro, forças do submundo interior. Alguns estão feridos e em busca de acalento e perdão.

De qualquer forma, eu sempre preciso estar numa estado de espírito específico pra sentir vontade de desenhar homens-demônios. É um contato com forças interiores diferentes das mulheres que costumo desenhar.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Inktober!

Fiquei sabendo deste desafio chamado Inktober, proposto pelo artista Jake Parker. O desafio é fazer um desenho em tinta por dia, durante todo o mês de Outubro. Aí, você deve postar em sua rede social com a hashtag #inktober. E é isso!
A única regra é utilizar algum tipo de tinta, como nanquim, aquarela, caneta, etc. Fora isso, a temática e a criação são livres!

Eu comecei um dia atrasada, então ainda quero fazer um desenho a mais em algum dia para compensar o primeiro. Mas estes são meus desenhos até agora:

 
#1 Uma mulher-mandrágora. Em nanquim, rabiscadinha com grafite.

#2 Um cogumelo Amanita em aquarela.

#3 Mais cogumelos em aquarela.

#4 Mulher coruja, em nanquim e guache dourado.
#5 Menina pássaro, ou harpia, em nanquim e caneta dourada.

Mas não tem sido fácil fazer um desenho todo dia! E muitas vezes, os desenhos que tentei fazer inicialmente não deram certo, estraguei ou não fiquei feliz com eles, e acabei fazendo outro. Foi o caso dos dois desenhos de cogumelos, hehe! E é possível que alguns eu queira refazer depois, como a Mulher Coruja, pois cometi alguns erros e coisas que gostaria de melhorar.

Mas é este o objetivo, praticar todos os dias e se aprimorar. Fazer desenhos em nanquim, por exemplo, pra mim não é muito fácil, pois não é uma técnica à qual eu esteja acostumada. Acho que gosto mesmo é do grafite, hehe! Mas quero praticar, quem sabe adquiro mais familiaridade e me afeiçoo à técnica.

E vamos lá! Ainda faltam 26 desenhos até o final do mês, hehe!
Eu geralmente vou postando todos na minha página do facebook, pra quem quiser acompanhar:
https://www.facebook.com/artofcarolinejamhour

Vocês podem clicar na hashtag #inktober lá no facebook, e também no twitter, para ver trabalhos de outros artistas que também estão participando do desafio! =)

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Paciência

Às vezes estamos atravessando tempestades ou florestas noturnas dentro de nossas paisagens internas. Exteriorizei alguns pequenos sortilégios em forma de desenhos no meu sketchbook.

Baba Yaga deu a Vasilisa um crânio numa estaca, de dentro do qual saía uma luz fantasmagórica, para iluminar seu caminho de volta pela floresta escura. Essa mesma luz transformou-se em fogo que incinerou sua madrasta e irmã más que lhe queriam o mal, quando Vasilisa voltou para casa.


E durante tempestades que parecem infindáveis, há de se ter paciência. Não há água infinita no céu, os ventos e tornados uma hora cessam, e essa é a natureza das coisas.
A vela preta esgota o mal. Sua chama brilha firme mesmo em meio ao vendaval. Quando termina de queimar, está findado o sofrimento.


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